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Esplendor e êxtase

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O presidente Lula continua fazendo folclore pelo mundo, agora elevado à condição de líder internacional e patrono de Honduras, país centroamericano que vive da exportação de mão-de-obra para os Estados Unidos. Órgãos de imprensa de peso, como a revista americana Newsweek, intitulam Lula como “o presidente mais popular do mundo”. E de fato é, com os 69% de aprovação ao seu governo apurados recentemente pelo Ibope. A publicação diz que o brasileiro foi a maior estrela da Assembléia Geral das Nações Unidas, realizada em Nova York. As câmeras podem focar na personificação do descolado americano Barack Obama, ou de autocratas exibicionistas e despeitados como o iraniano Mahmoud Ahmadinejad e o venezuelano Hugo Chaves. Mas, a maior estrela disponível “foi o duro, barbado e ex-torneiro mecânico”. Quem disse tudo isto foi a Newsweek.

E não para aí. O Le Monde, o mais influente e independente jornal francês escreveu que Lula tinha razão quando prognosticou mínimos efeitos da crise financeira internacional sobre a consistente economia brasileira. A “marolinha” do Lula, no jornal francês virou uma adorável “vaguelette”. Sinta o poder de quem se dispõe a gastar 22 bilhões de dólares para comprar caças supersônicos, submarinos nucleares e helicópteros. De tanto que o rádio e a televisão falam no tal Rafale, logo-logo vai ter cartório registrando bebês com o sonoro nome do avião. Ninguém segura este País que será sede da Copa do Mudo em 2014 e é candidato a sediar os Jogos Olímpicos. Bem por isso o Woody Allen quer fazer um filme no Rio de Janeiro, a exemplo da película que rodou tendo Barcelona como pano de fundo: “A bala perdida”. Bingo! Aliás, enquanto o presidente viaja, aqui a lambança continua. O Congresso aprovou não só a volta do bingo como também acaba de dar à luz a mais 7.300 vereadores.

Nosso guia até aprendeu com ao chanceler Celso Amorim a pronunciar “Ahmadinejad”. Saiu alguma coisa parecida com “arruma a dilma-já”. Suficiente para Lula abordar o iraniano e puxar a sua orelha por andar negando o Holocausto. Na reunião das nações mais ricas do mundo, o nosso lépido operário-presidente aparece em foto conversando animadamente com chefes de Estado da Alemanha (Merkel), Holanda (Balkenende) e dos Estados Unidos (Obama). Nenhum deles fala português ou espanhol. Mais uma prova da habilidade do nosso presidente como comunicador. Para quem entende, um risco é zé-francisco. O Fundo Monetário Internacional prevê que a economia global cresça “perto de 3% até o fim de 2010”. Lula assegura que no Brasil o crescimento será de 5%. O conjunto de líderes dos países mais ricos, no texto final do G20, afirma que “o desemprego permanece inaceitavelmente alto”. Lula mostra outro contraste: o Brasil criará neste ano mais de 1 milhão de empregos com carteira assinada. Gol de cabeça. Essa extraordinária performance, na análise do guia do povo brasileiro, só é possível por causa “da queda do Muro de Berlim que permitiu que a esquerda tivesse liberdade de pensar”. Sarkozy chegou a pular da cadeira quando ouviu: “merde alors!”

Agora Lula se dedica a um dos campos de pesquisa menos estudados pelos cientistas políticos e, por conseguinte, menos teorizados: o destino dos elefantes. O que fazer com aqueles políticos que se negam a largar o osso, não querem deixar de ser protagonista e muito menos de renunciar a um status patrimonialista ao qual já se acostumaram? Ou, como se diz no México: “a donde van a morir los elefantes?” Presidentes latinoamericanos conseguiram a reeleição. Hugo Chaves, na Venezuela, bolou um plebiscito para se eleger indefinidamente. Óscar Arias, da Costa Rica; Alan García, do Peru, e Daniel Ortega, da Nicarágua, já estão no segundo período. Leonel Fernández, presidente dominicano, chegou ao terceiro mandato. Evo Morales, da Bolívia, e Rafael Correa, do Equador, embora recém- chegados, já manipulam a continuidade. No Brasil, a reeleição foi criada por Fernando Henrique e Lula voltará para um terceiro e quarto mandatos a partir de 2014. Fernando Collor e José Sarney acharam uma outra via, a de se elegerem senadores por Alagoas e Amapá. Lula, ao que parece, também não quer ir para o cemitério dos elefantes e tenta impulsionar o bolivarismo continuísta na latinoamérica. Atolou-se até os chifres em Honduras. Mel Zelaya desencadeou um golpe de Estado por tentar forjar um caminho para sua continuidade na vida política hondurenha.

Quis celebrar uma consulta plebiscitária sobre a reforma constitucional do seu país, que incorporaria a reeleição à presidência. Desafiou a Constituição de Honduras que pune com a perda do mandato qualquer tentativa de mudar a regra. Razão tinha Severino Cavalcanti: “o pudê, é o pudê”.

Zarcillo Barbosa é jornalista e colaborador do JC

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