Tegucigalpa - Contrariando orientações do governo Lula, o presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, abrigado na embaixada brasileira há seis dias, exortou ontem a população do país a “promover atos de desobediência civil” contra o regime de Roberto Micheletti.
“Chamamos (o povo) à resistência para vencer aos que nos roubaram a paz, e a organizar-se, em cada aldeia, bairro, povoado, município, para fazer atos de desobediência civil contra a ditadura”, diz o comunicado, distribuído no final da tarde de ontem aos jornalistas que também estão dormindo na embaixada. Em conversa telefônica, o chanceler Celso Amorim havia pedido a Zelaya que não fizesse a partir da embaixada “qualquer tipo de manifestação que possa ser interpretada de maneira equivocada”, ontem, em Nova York.
As constantes declarações de Zelaya exortando à desobediência e as duras respostas de Micheletti têm turvado ainda mais a possibilidade de reabertura dos diálogos entre os dois lados. Na quarta-feira, um emissário do governo golpista visitou a embaixada, mas os dois lados concordaram em que não houve avanços.
Apesar de apenas uma porta separar Zelaya da imprensa, o presidente deposto preferiu se comunicar via nota. Para economizar papel, foi feita apenas uma cópia, passada entre os nove jornalistas no local.
Na mesma nota, Zelaya diz que “se encontra bem de saúde’’ depois de a embaixada brasileira ter sido atingida ontem por um gás não identificado. O presidente deposto comparou o episódio “às temíveis duchas nazistas dos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial’’.
O incidente provocou mal-estar entre as 63 pessoas abrigadas no prédio, entre os quais um funcionário da embaixada. Três médicos foram autorizados a entrar para examinar os afetados pelo gás, incluindo Zelaya, mas ninguém precisou de cuidados médicos adicionais.
Negativa
Micheletti diz que não houve ataque de gás contra a embaixada e tem dito que respeitará a soberania da representação. O Conselho de Segurança da ONU condenou os “atos de intimidação” contra a embaixada brasileira, cercada desde terça por policiais e militares e que teve a luz e a água cortadas no início da semana - os telefones fixos seguiam inoperantes.
Por determinação de Zelaya, seguranças dele e de sua família entregaram 17 pistolas a um funcionário da embaixada brasileira, na última quarta. As armas continuam dentro do prédio, em uma sala à qual os militantes não têm acesso.Apesar de proibição do Itamaraty, parte dos seguidores de Zelaya continuam usando panos para esconderem o seu rosto, principalmente quando estão vigiando a entrada do local.