Bairros

80% dos animais chegam pela mão do dono

Wagner Carvalho
| Tempo de leitura: 3 min

Bastam alguns minutos em frente ao Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) de Bauru para se assistir ao abandono de animais no local. A maior parte desses cães apresenta algum tipo de doença. Segundo o veterinário José Rodrigues Gonçalves Neto, chefe do Centro de Controle de Zoonoses de Bauru, de cada 100 animais que chegam ali, 80 vêm pelas mãos do próprio dono, que, sem condições de tratar a doença do animal, desiste de mantê-lo em sua residência.

A agressividade também motiva os abandonos. O medo de que o animal ataque pessoas da família é que leva os proprietários a abandonarem o cão ou o gato que um dia foi de estimação. Suspeitas de que o animal esteja contaminado com leishmaniose é outra razão apontada por munícipes para deixar os cães no CCZ.

Segundo Gonçalves Neto, de 400 a 500 animais com diagnóstico positivo da doença são sacrificados mensalmente por meio da eutanásia. “Desde 2003, quando surgiram os primeiros casos, já foram sacrificados somente aqui no CCZ cerca de 40 mil animais”, afirma.

Rosemeire de Paiva, moradora no Núcleo Habitacional José Regino, deixou um cachorro para ser sacrificado. O animal foi encontrado perdido no rio Bauru e levado para sua casa. “Mas ele começou a apresentar feridas pelo corpo e a ficar agressivo. Trouxe para fazer o exame de sangue e o resultado ainda não saiu, mas não dá para deixá-lo mais em casa. Tenho crianças e outros cachorros que correm risco de se contaminar se a doença for mesmo confirmada”, justifica-se.

Pelos números do próprio CCZ, em média, 20 animais são abandonados por dia no local. A maior parte tem diagnóstico para leishmaniose confirmado e, seguindo a lei, a única coisa a ser feita é promover o sacrifício do animal.

O médico veterinário afirma, porém, que mesmo que todos os cães sejam mortos, a doença não irá acabar. “O problema não está no cão, ele é tão vítima quanto o homem. Se não tiver cachorro, o vetor irá se adaptar a picar qualquer outro animal. É preciso se eliminar o problema na raiz”, afirma.

Por essa razão, Gonçalves Neto defende a eliminação dos locais onde o mosquito fêmea, vetor da doença, possa depositar seus ovos. Entre eles, imóveis onde haja matéria orgânica em decomposição, espaços preferidos por oferecerem alimento e umidade, condições essenciais para a reprodução.

“Não há motivo para que as pessoas façam do quintal de sua casa ou de terrenos baldios um depósito de lixo, a coleta é feita regulamente na cidade e temos ainda coleta seletiva”, argumenta o veterinário.

O CCZ também é responsável pela fiscalização de terrenos, mas a equipe é reduzida e o número de lotes baldios na cidade ultrapassa 80 mil. “O problema maior é identificar o dono para solicitar a limpeza. Quando o proprietário é localizado, ele justifica que o terreno tem mato, mas que não foi ele quem depositou lixo no local”, explica.

Gonçalves Neto acredita que só será possível um controle eficaz dessas zoonoses quando ações coletivas forem registradas entre moradores e município. “Não temos apenas problemas com leishmaniose, temos de controlar a população de morcegos, mesmo não hematófilos, por que em contatos com essa espécie podem estar contaminados com a raiva”, conta. “Outro problema é a dengue, que é sazonal”, completa.

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