Quando era criança, Orminda Machado de Camargo sonhava em estudar na cidade. Ela nasceu e cresceu na roça, mais especificamente na fazenda Irara Preta, em Itaju. Fez o primário no sítio, graças à visão de futuro do pai dela, que sempre abria uma escola por onde passava.
De tanto insistir com a história de querer estudar na cidade, a jovem conseguiu convencer o pai deixar a roça. A essas alturas, ela já tinha 17 anos e havia concluído apenas o primário. Como a família tinha parentes em Bauru, vieram para cá de mudança.
De pronto, Orminda se matriculou no curso de madureza, destinado a jovens e adultos que não haviam tido a oportunidade de cursar os antigos ginásio e colegial. Em 1971, o curso de madureza foi substituído pelo projeto minerva e, posteriormente, pelo curso supletivo.
Concluído o curso, a ex-menina da roça queria voar mais alto. Foi então que decidiu que queria estudar no Colégio Estadual e Escola Normal Ernesto Monte. Mas para se tornar uma normalista, ela precisava antes passar pelo temido exame de seleção da escola. Até hoje, Orminda lembra os momentos de apreensão que antecederam o exame. Estava aflita, nervosa. Mas, segundo ela, por uma graça divina, naquele ano, o número de candidatos ao curso normal coincidia com o número de vagas, ou seja, todos os interessados conseguiram ser admitidos.
Foram três anos de curso. A formatura ocorreu em 1954. “Saí de lá não somente formada, mas muito bem informada. Como eu tinha muita vontade de aprender, estava no lugar certo.” Com os olhos brilhando, a ex-caipira garante com voz firme que deixou o Colégio Ernesto Monte totalmente transformada. A menina tímida e insegura do início deu lugar a uma outra mais senhora de si e decidida, que surgiu nos três anos em que esteve circulando pelos corredores da escola. “Lembro com muita saudade e alegria daqueles tempos. Foi uma época que mudou a minha vida”, afirma. Ela comenta que era comum na hora do recreio uma parte dos alunos, ao invés de brincar, reunir-se debaixo de uma árvore para comentar sobre as aulas e o conteúdo que os professores haviam passado.
Depois de formada, Orminda foi dar aulas em uma colônia de japoneses, em Mirandópolis. Em 1956, voltou para fazer o curso de aperfeiçoamento no Ernesto Monte, uma espécie de pós-graduação para o magistério. Chegou ao cargo de diretora em uma escola na cidade de São Paulo, foi dirigente e implantou o serviço de recursos humanos da Divisão Regional de Ensino de Bauru. Aposentou-se como diretora de escola e em 2000 lançou seu livro “A Saga de uma Caipira” na Bienal Internacional do Livro, em São Paulo. Desde então, faz parte da Academia Bauruense de Letras (ABL).