Fui abordado por muitas pessoas sobre a reportagem que saiu no Jornal da Cidade do último dia 20 de setembro com o título “Pesquisa: um olhar agnóstico da Bíblia”. A reportagem de Rodrigo Ferrari falava da pesquisadora bauruense Mariza Bianconcini Teixeira Mendes e seu livro “No Princípio Era o Poder”. Ao ler a reportagem cheguei à seguinte conclusão: A doutora Mariza perdeu dez anos de seu precioso tempo. Por quê? Vou dar brevemente as razões, em dois textos, conforme combinado com o editor, um nesta edição e outro na edição de amanhã.
Primeiro, o fato de Deus criar o gênero humano a sua imagem e semelhança não tem correlação com a eleição de Israel. Ao criar o ser humano Deus deu a ele sua imagem, ou seja, os Seus atributos comunicáveis, tais como bondade, misericórdia, compaixão e solidariedade; e semelhança, que nada mais é que um espírito pessoal do qual o ser humano pode se relacionar com Deus. A beleza da concepção humana está em que nada na Criação recebeu estas coisas. Não existe nenhuma árvore, cachorro ou qualquer paisagem à imagem e semelhança de Deus. Agora, o fato de Deus escolher Israel como Seu povo não representa nenhuma lacuna, muito menos um desejo dos hebreus antigos de se auto-promoverem, tentando subjugar os povos com uma violência gratuita e legitimada pela divindade. Que povo revelaria sua escolha nos seguintes termos: “O Senhor não se afeiçoou a vocês nem os escolheu por serem mais numerosos do que os outros povos, pois vocês eram o menor de todos os povos” (Deuteronômio 8:7 – NVI)? Que povo escreveria sobre seus grandes heróis e personagens, mostrando não apenas o melhor deles, mas também o pior? Que povo falaria de Seu Deus como alguém que os destruiria, para puni-los de seus pecados? Ao olhar o Antigo Testamento vemos mais que o desejo humano de prevalecer sobre os outros; Deus escolheu Israel para ser uma nação sacerdotal e povo de Seu Messias (Êxodo 19:6; Isaías 7:14; 9:6; 11:1-10).
Segundo, os dados acerca de Abraão e dos hebreus estão equivocados. Na reportagem menciona que Abraão, por volta do ano 1750 a.C. teria deixado Ur, a mando de um deus chamado Javé e saiu com o restante do povo hebreus. O patriarca Abrão (como se chamava antes Abraão) nasceu por volta de 2165 a.C. e morreu por volta de 1990 a.C. Ele era de Ur dos Caldeus (Mesopotâmia), descendente de Sem, filho de Noé (por isso são chamados de semitas) e por meio de Héber era a nona geração após Sem (por isso os seus descendentes foram chamados de Hebreus). Ele saiu de Ur para Harã, no norte da Mesopotâmia, e dali por volta de 75 anos viajou para Canaã com sua esposa e seu sobrinho Ló, mais os escravos que tinha. Então não era um povo, mas uma família apenas (Gênesis 12). A arqueologia mostra que os costumes e a vida de Abraão, relatados na Bíblia, concordam com o segundo milênio antes de Cristo. Quando surgiram os hebreus? Após os quatrocentos anos de escravidão no Egito. Após Abraão e Isaque, a Bíblia relata que o clã de Jacó chegou no Egito e tinham sessenta e seis pessoas.
Isso era um povo? Não, mas apenas um clã, formado por outros clãs (Gênesis 46:26; Êxodo 1:5). Segundo nos diz Gênesis 41:37 a 50:26, José foi feito governador do Egito. É bem provável que ito se deu no período de domínio dos hicsos (1750 –1552 a.C.). O termo “hicsos” significa “chefes estrangeiros” e era aplicado pelos faraós do Médio Império aos príncipes asiáticos. É bem provável que os conquistadores adotaram este título. Eles se aproveitaram da fraqueza política do Egito para invadirem e conquistarem a terra dos faraós. Ainda segundo o texto bíblico, houve uma permissão do faraó para que a família de José ficasse na terra de Gosén (Gênesis 46:31-34), que fica entre o braço mais oriental do Delta do Nilo e o lago do crocodilo (Birke et2 Timsah). O clã de Jacó era de setenta pessoas, segundo a Bíblia (Êxodo 1:5). Após 430 anos os descendentes de Abraão cresceram e multiplicaram-se no Egito. Falar de Hebreus em Abraão é algo falso e desprovido de lógica cronológica e arqueológica.
O autor, Gilson Souto Maior Junior, é pastor sênior da Igreja Batista do Estoril e professor do Antigo Testamento da Faculdade Teológica Batista de Bauru - Fateo
Nota da redação: Excepcionalmente, publicaremos em duas partes este artigo devido ao tamanho do mesmo exceder o limite para a coluna Opinião.