Quando eu estava na faculdade de jornalismo, há uns seis ou sete anos, participei de alguns processos de seleção para vagas de estágio remunerado. Como todo estudante que se preze, eu estava desesperado para ter uma chance de ingressar no mercado de trabalho. Oras, todas as empresas exigiam (e ainda exigem) experiência anterior na área, e eu não tinha nenhuma!
Eu enviava currículo para qualquer vaga que aparecesse. Aí, um belo dia, alguém me telefonava para saber se eu tinha interesse “em ‘estar participando’ do processo seletivo que ocorreria na próxima sexta-feira, à tarde”. Obviamente, minha resposta era “sim”. Ao chegar ao local da entrevista, porém, invariavelmente costumava me deparar com dezenas de candidatos para aquela única vaga.
Dinâmicas de grupo, entrevistas coletivas e individuais, exercícios práticos, calafrios, dor de barriga e aquela dúvida cruel - serei eu o escolhido? Terminados os testes, um profissional (que, em geral, identificava-se como psicólogo ou analista de recursos humanos) se aproximava do pobre candidato acuado (eu era um deles) e dizia, com ar benevolente: “Muito obrigado. Entraremos em contato com você até quinta-feira que vem”.
Passavam-se dias, semanas, meses... E a tal quinta-feira nunca chegava. Quantas vezes não fiquei me perguntando: “Onde foi que eu errei?” Muitas vezes, pensei em telefonar para a empresa, a fim de saber o porquê de não ter sido escolhido. Queria saber, pelo menos, quais haviam sido minhas falhas. Mas nunca levei esse desejo adiante, pois acreditava que os responsáveis pela avaliação poderiam considerar que eu estava agindo de forma inconveniente.
Se eu tivesse feito tal questionamento, porém, estaria apenas exercitando um direito meu. Cada vez que um cidadão passa por uma avaliação médica ou psicológica, por exemplo, tem o direito de ser informado sobre os resultados dos testes a que foi submetido.
Se quiser, pode, inclusive, questionar os critérios utilizados na avaliação. Quantas vezes, durante esses processos seletivos para estágio, não tive vontade de perguntar: “Por que tenho de fazer isso? Para que serve essa ficha que estou preenchendo?” Dependendo da situação, eu poderia ter me negado a fazer determinados tipos de testes.
“O psicólogo deve fornecer informações sobre o trabalho a ser realizado, bem como seus objetivos, e os resultados decorrentes desse procedimento, conforme determina o artigo 1 do código de ética profissional”, explica Regiane Aparecida Piva, membro da Comissão Gestora da subsede Bauru do Conselho Regional de Psicologia (CRP).
No caso dos profissionais de psicologia, eles somente podem usar em suas avaliações técnicas e conhecimentos reconhecidos cientificamente pelo conselho federal da categoria. Eles não podem utilizar práticas que induzam a crenças de qualquer natureza, sob o risco de sofrerem sanções administrativas, ou seja, não podem, por exemplo, utilizar reiki, tarô ou terapia de vidas passadas em suas avaliações.
Certa vez, durante um processo de seleção para estágio em uma grande empresa de comunicação, em São Paulo, eu e mais uns dez estudantes de jornalismo tivemos de passar por um teste grafológico, técnica que ainda não é reconhecida como válida pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP).
O interessante é que o processo de seleção era comandado por uma mulher que havia se identificado como psicóloga. Em dado momento, uma garota que pleiteava uma das vagas disponíveis resolveu abrir mão de seu sagrado direito de permanecer calada. “Grafologia não é ciência. É charlatanismo”, disse, em voz alta.
A psicóloga fechou a cara. “Aqui, no Brasil, pode até não ser ciência. Mas, nos Estados Unidos, onde fiz minha especialização, é um técnica reconhecida por todas as associações profissionais!”, respondeu. Pobre colega... Acredito que ela não tenha sido escolhida para ocupar a tal vaga.
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Exame médico
As avaliações médicas costumam ser a última fase de um processo de seleção profissional. Também neste caso o candidato à vaga de trabalho tem o direito de ter acesso aos resultados dos exames a que porventura for submetido.
“Independentemente da finalidade do exame, o paciente tem o direito de receber o laudo médico, sempre que solicitar”, afirma Carlos Alberto Monte Gobbo, conselheiro do Conselho Regional de Medicina (CRM).
De acordo com ele, o médicos devem fornecer aos pacientes todas as informações a respeito dos procedimentos que adotarem. Além disso, apenas poderão submeter a pessoa a um exame, por mais simples e inofensivo que seja, se ela consentir. Por fim, deverão permitir que o indivíduo tenha pleno acesso ao seu prontuário de atendimento.
Gobbo explica que, no caso do exame periódico (que as empresas realizam, de tempos em tempos, com seus funcionários), os médicos devem manter o foco na saúde do trabalhador e não nos interesses do empregador.
“O exame periódico serve para identificar se o funcionário está sujeito a algum tipo de risco inerente à função que executa. A intenção é preservar a saúde do trabalhador”, salienta Gobbo. Ela explica que o indivíduo tem o direito de se negar a passar por qualquer tipo de avaliação que extrapole esses objetivos.
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Perguntar ofende?
A psicóloga Regina Maura Pereira Torres, que atua em uma empresa bauruense de assessoria de recursos humanos, explica que o fato de um candidato questionar os métodos de avaliação adotados por uma empresa não significa, necessariamente, que ele sairá prejudicado do processo seletivo.
“Questionar - ou mesmo criticar - a avaliação não é problema. É preciso, porém, que a pessoa saiba fundamentar seus apontamentos. Do contrário, parecerá que ela quer apenas polemizar”, afirma.
Segundo ela, o segredo está na forma como a pessoa se dirige ao avaliador. A garota citada no texto anterior, que questionou o uso da grafologia, por exemplo, poderia ter sido mais gentil com a mulher que comandava o processo seletivo. Deveria, inclusive, ter evitado utilizar a palavra “charlatanismo” para se referir à técnica a que éramos submetidos.
Regina lembra que, dependendo da forma como coloca suas dúvidas ou críticas, o candidato poderá até “ganhar pontos” em um processo seletivo. “Saber questionar denota que a pessoa é curiosa e tem espírito crítico”, afirma.