Tribuna do Leitor

Para a sociedade de idosos (e outras)


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Sei lá se a velhice começa aos 40, 50, 60, menos ou mais anos de idade. Conforme o cuidado com a cabeça e o corpo, a pessoa pode estar velha aos 30 anos. Depende da inteligência. Em outubro próximo, chego aos 83 anos e, sem exagero, a todo o vapor. Não existe receita milagrosa. Aposentado, decidi não aposentar a vida. Não deixo que ela me faça sentar num banco com a solidão a me namorar. Sou ativo de oito a dez horas por dia. Leio e escrevo muito. Faço palestras em escolas em Bauru e região enfocando o incentivo à leitura. Já palestrei pra milhares de estudantes dos vários níveis escolares. Do fundamental ao superior. Pelo menos três boas caminhadas por semana. Alimentação, como de tudo a mediar às três refeições diárias. De vez em quando papo e cervejinha com amigos e diariamente minha tacinha de vinho.

Prefiro ser chamado de “idoso” a “velho”. Idoso, quer dizer bastante idade e velho soa pejorativo; gasto, usado, estragado, inútil, sucata. Sou um idoso sempre alegre. A alegria é saudável. O riso é música. A alegria e o riso são doces fatias do bem-estar. Às vezes, porém raramente, me aborreço e entristeço com coisinhas. Tem dia que a gente acorda com o pé esquerdo. Rezo diariamente. Não só agora porque sou idoso. Sempre conversei com Deus. Desde que me descobri como pessoa. Encontrei n’Ele meu confidente que ouve em silêncio e me responde nas estrelas. Quem me conhece sabe quantas vezes Ele me levantou depois das pauladas que levei. E, saibam meus amigos idosos, aos 75 anos de idade, depois de quatro anos de viuvez, casei com uma mulher mais jovem do que eu em 37 anos! Arre, é de assustar?

Absolutamente não! Cochichos, preconceitos, olhares, sorrisos irônicos, etc. Minha mulher e eu levamos tudo na base da graça e fazemos da nossa união um grande testemunho de vida e amor. E vamos a todos os lugares de mãos dadas. O que pensam é besteira de pessoas burras que não sabem dar valor à benção da vida e das doces surpresas que o Pai concede. Tantos jovens e idosos que vivem sem saber viver. Só reclamam e batem portas. Não entendem que a existência é uma dádiva e fazem dela um inferno. Sem ver as belezas em todas as manhãs a renovar a esperança. Acordam chutando o pé da cama e a cuspir no prato que comem. Não dizem nem bom dia aos que os rodeiam. Nem agradecem a Deus aquele calorzinho gostoso do Sol esquentando o frio e a música na Natureza. Ignoram a vida e temem a morte.

Quando eu era moleque, li, não me lembro onde e nem o nome do autor: “Cada dia é um dia melhor quando nós ajudamos a construir um mundo melhor”. Devemos ajudar começando com a gente mesmo não é? Independente da idade. Se não nos construirmos bem com que base ajudar? Mesmo idoso, continuo na construção para um mundo melhor. Como este artigo. Quem sabe meus companheiros na idade percebam que não são “velhos” e continuem a viver com o entusiasmo que nunca deve ser colocado à margem da vida.

A palavra entusiasmo, do grego, quer dizer “Que tem o ar de Deus dentro de si”. Então, nada mais correto do que distribuir, exalar esse ar abençoado renovando o entusiasmo em quem o perdeu. Assoprar vida, ser a luzinha no fim do túnel. É fácil, não dá trabalho, e faz a gente mais feliz.

A vida vale mais quando se é idoso porque o tempo é mais curto e com ou sem tropeços, fortificou a fé e a esperança de viver mais para ajudar a construir um mundo melhor. A experiência aconselha a agir assim. Agora mesmo, estou agradecendo a Deus os meus quase 83 anos de idade e pensando que ainda não fiz tudo o que poderia ter feito, mas com a confiança de que ainda farei. Perdoei todos e tudo que tinha a perdoar. O que tinha de amar, vivo amando. Perdoar e amar rejuvenesce!

Sou senhor da minha energia e dos meus atos. E tenho muitos segredos da vida para contar. Viver com entusiasmo todo tempo, que é o que Platão filosofou: “O reflexo movediço e irreal da eternidade”.

Munir Zalaf - Escritor, poeta e palestrante voluntário. Presidente da Academia Bauruense de Letras

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