Alegre, ativa, elétrica. Parece que as características que levaram o pai de Dalva Corrêa a apresentá-la ao balé, quando criança, são as mesmas que a bailarina, ainda hoje, preserva e que teimam em descrevê-la, aos 70 anos. Diante disso, talvez os que conheçam a vitalidade e disposição da fundadora do Ballet Vitória Régia não se surpreendam com sua última “travessura”.
Entre os participantes do 4.º Fórum Mundial da Dança, realizado na última semana, na Argentina, pela Confederación Interamericana de Danzas, Dalva saiu, além de aplaudida e homenageada, vencedora do festival em sua categoria. “Fomos achando que iríamos apenas nos apresentar, mas, chegando lá, pediram para que disputássemos também. Foi uma grande surpresa, assim como ganhar”, comenta a professora, que foi acompanhada pelo bailarino José Luiz Bortolucci.
O fórum foi realizado no Teatro Broadway, em Buenos Aires, e reuniu cerca de 70 grupos de diversos países, principalmente da América Latina. “É sempre emocionante. Fomos muito aplaudidos, não paramos de posar para fotos o tempo todo”, alegra-se. A partir dos seus 50 anos, Dalva resolveu dedicar-se mais ao ensino do que aos espetáculos. Porém, mesmo não tão presente nos palcos como antigamente, a professora afirma que, enquanto houver disposição, não deixará a dança.
“ Cheguei a parar por 15 anos para me dedicar mais à família. Quando minhas filhas estavam mais crescidas, voltei. Depois dos 50, aos poucos, fui parando de me apresentar novamente com o grupo porque achei que já estava com uma boa idade. Mas, enquanto eu tiver condições, dançarei ocasionalmente, como no festival para matar as saudades. Às vezes, dá uma recaída, não tem jeito”, diverte-se.
Com 32 anos à frente do Ballet Vitória Régia - primeira escola de dança registrada em Bauru -, Dalva diz ser a disciplina seu maior legado deixado pela dança. “Foi o que eu aprendi, acima de tudo”, resume, cercada de seus aprendizes, que ajudam a elevar para mais de 5 mil o número de alunos que já passaram por suas mãos.
“As crianças são alegres, um sentimento que muitos acabam perdendo com a idade. E, para mim, uma vida boa é a que é levada com alegria”, aconselha, ostentando com orgulho os cabelos brancos. “A idade não me incomoda. Pintar os cabelos? Para parecer uma mocinha? As pessoas precisam ver que o que não se pode perder é a vontade, e isso eu não perdi”, completa.
____________________
Movimentos da alma
Uma das coreografias criadas para comemorar o aniversário de 30 anos do Ballet Vitória Régia, em 2007, foi a que conduziu os bailarinos Dalva Corrêa e José Luiz Bortolucci nos palcos argentinos. “Poema” é assinada pela própria professora, feita em homenagem ao marido, falecido há quase cinco anos.
A partir de um poema escrito por ela, a apresentação descreve o movimento de duas almas que se amam. “É como se, em cada um de nós, existisse a alma do outro. Assim como as palavras do poema, os movimentos ilustram a troca de forças e a simbiose existente entre os seres”, explica. “Eu me apoiava nele e ele me equilibrava e, um sem o outro, não era ninguém”, emociona-se a coreógrafa e professora.