Caracterizada pela pequena produção em propriedades rurais geridas por grupos que possuem laços de parentesco, a agricultura familiar na região resiste ao aumento da concentração de terras evidenciado pelo fortalecimento do agronegócio nos últimos anos. Retratadas pela primeira vez pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no Censo Agropecuário de 2006, divulgado nesta semana, as propriedades administradas pelo dono e seus familiares são quase metade dos estabelecimentos agropecuários de Bauru.
Mas como são pequenas, representam apenas 6% da área das propriedades rurais. De acordo com o estudo, dos 470 estabelecimentos existentes, 228 (48,5%) eram destinados à produção entre membros da família. No entanto, essa parcela ocupava apenas 2.415 hectares dos quase 40 mil que somam a área rural da cidade.
Mas na avaliação de Maurício Lima Verde, presidente do Sindicato Rural de Bauru, a concentração que vem se acentuando na última década na região não é necessariamente algo ruim, porque demonstra que a terra está sendo explorada por quem tem capital para investir. Este aspecto foi um dos motivos para o ganho de produtividade.
“Quem compra são as indústrias e profissionais liberais que têm recursos financeiros para investir e isso é excelente para a economia do País. Há 30 anos, nossa região era cercada de áreas de campo baixo e hoje está repleta de plantações, além das pastagens”, comenta.
Para o presidente, o aumento da concentração de terras é fruto de uma imposição econômica e reflete o modelo escolhido pelo Brasil: uma agricultura competitiva e em busca de “resultados”. Na região, o aumento do perímetro dos patrimônios fundiários, segundo Lima Verde, foi puxado por grandes empresas que ampliaram suas produções de eucalipto, pinus e cana-de-açúcar e pela profissionalização do agronegócio. “São mercadorias voltadas ao mercado interno e exportação. E a tendência é que o mercado de madeira cresça ainda mais, já que estudos apontam que há um potencial de mercado e áreas ainda inexplorado de 100% além do que já produzimos.”
Apesar de concentrar as propriedades nas mãos de poucos, o agronegócio, na opinião de Lima Verde, ainda convive em relativa harmonia com a agricultura familiar. Isso porque, de acordo com ele, até agora a concentração de terras não foi acompanhada da redução da atividade agrícola familiar.
“Nossa agricultura familiar é responsável por produzir cerca de 65% dos itens básicos da nossa alimentação. É um setor que produz para subsistência, mas também abastece o mercado interno”, observa, ressaltando que políticas públicas como o Plano Safra da Agricultura Familiar (Pronaf) e a Previdência Rural têm sido importantes ações para garantir segurança e estabilidade ao produtor.
Baseado nos dados divulgados pelo Censo Agropecuário, o alcance da agricultura familiar na produção de algumas culturas brasileiras realmente impressiona. No período analisado pelo IBGE, esse tipo de exploração da terra foi responsável por 87% da produção nacional de mandioca, 70% de feijão, 46% do milho, 38% do café, 34% do arroz, 21% do trigo e, na pecuária, 58% do leite, 59% do plantel de suínos, 50% das aves e 30% dos bovinos. No Brasil, as propriedades familiares são 84% do número total de propriedades rurais existentes, mas ocupam apenas 24,3% da área dos estabelecimentos agropecuários brasileiros. Não há dados comparativos aos censos anteriores porque foram apurados de acordo com lei número 11.326, de 24 de julho de 2006, que define e regula a agricultura familiar.
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Até terra arrendada serve ao projeto
A agricultura familiar ganhou tamanha força no País, principalmente com os subsídios oferecidos pelo governo federal, que não é necessário ser proprietário de terra para conseguir produzir. É o caso do produtor de mel Agenor Zanqueta, que ganha a vida com o trabalho em família dentro de pequenas áreas arrendadas em cerca de 15 propriedades rurais de Bauru e Tibiriçá.
Além do mel, ele também produz cera, própolis e colméias, que são comercializadas em feiras livres e vendidas para estabelecimentos como supermercados e quitandas. “Eu trabalho com isso há mais de 20 anos, mas registrei a firma em 2002. Meus apiários têm cerca de 60 metros quadrados e podem ser montados em áreas de citricultura e até de pastagens, porque convivem bem com o gado”, explica.
De acordo com Zanqueta, a produção foi fraca neste ano devido ao prolongamento da época de ventos fortes e baixas temperaturas, mas afirma que os dividendos obtidos com o negócio nos últimos anos têm sido bastante satisfatórios. “Tenho aumentado a produção a cada ano com investimento em maquinários novos. Faço o trabalho que é possível fazer (em termos financeiros) e estou conseguindo resultados muito bons”, complementa.