Com lágrimas nos olhos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem que a escolha do Rio para sediar os Jogos Olímpicos de 2016 derrubou o último preconceito contra o Brasil. Para ele, o País mostrou que tem competência para sediar o evento, ao vencer Chicago, Madri e Tóquio na eleição realizada em Copenhague, na Dinamarca.
“Estou muito emocionado porque foi um trabalho extraordinário de todos brasileiros que queriam a Olimpíada. O trabalho do governo federal, estadual e municipal com o COB (Comitê Olímpico Brasileiro). Hoje, o Brasil conquistou a cidadania internacional. Quebramos o último preconceito. Provamos que temos competência para fazer a Olimpíada”, afirmou Lula.
O presidente ressaltou que o Rio e o Brasil têm o direito de realizar uma Olimpíada, apesar dos problemas sociais, e prometeu a realização da melhor edição dos Jogos de todos os tempos. “Foram dois anos, apresentação de programas, centenas de pessoas que estão de parabéns. O Brasil está de parabéns. Era difícil pensar que o Terceiro Mundo conseguiria. Alguns nos tratam como País de segunda classe. Dizem que tem favela, criança pobre e não pode fazer Olimpíada. Temos o direito de fazer uma Olimpíada. E mostrar que a alma generosa vai fazer a maior Olimpíada que o mundo já viu”, comentou.
Para Lula, a emoção da apresentação brasileira foi decisiva para o triunfo do Rio. “Ficou muito visível de que Chicago e Tóquio vieram pra cumprir tabela. Quem estava para votar, viu que estávamos com alma. Nos tínhamos que provar competência para fazer a primeira Olimpíada. E as pessoas viram isso nos nossos olhos”, analisou o presidente.
Ele também ressaltou que a escolha do Rio mostrou que o Brasil está sendo respeitado internacionalmente. “É dia de comemorar, porque o Brasil deixou de ser País de segunda classe. Queria agradecer a todos que trabalharam. É uma vitória de 190 milhões de almas. Do continente americano, da América Latina. Prevaleceu a paixão, a verdade”, comemorou Lula.
____________________
Preparação começa hoje
Começa hoje, em Copenhague, a odisséia dos Jogos Olímpicos de 2016. Na primeira reunião de trabalho, o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman, e o secretário-geral da candidatura do Rio, Carlos Osório, apresentarão os rascunhos da organização ao Comitê Olímpico Internacional (COI), a começar pelo cronograma de obras a serem realizados. Integrantes do COI de várias nacionalidades alertaram para a mesma coisa: a comemoração é válida, mas tem de se transformar logo em trabalho.
“A euforia precisa se transformar em trabalho”, afirmou o príncipe Albert, de Mônaco, um dos integrantes do COI que votou ontem na eleição da sede olímpica de 2016. “Esperamos que o Brasil tenha aprendido com o que ocorreu em Atenas (em 2004). O País organizará os dois maiores eventos do mundo (a Copa será em 2014) e precisará se concentrar para isso”, disse o monarca.
____________________
Comitê fala em investir R$ 1,38 bi na segurança da competição
Deixada fora da lista de preocupações do COI (Comitê Olímpico Internacional) em relação aos Jogos Olímpicos de 2016, a questão da segurança no principal evento esportivo do planeta deve custar ao Rio de Janeiro cerca de US$ 777 milhões (aproximadamente R$ 1,38 bilhão). O Comitê da candidatura brasileira prevê investir US$ 11,1 bilhões em infraestrutura até o ano da competição, sendo que 7% deste valor irá para o projeto de segurança da Olimpíada.
O plano carioca para a segurança foi poupado de críticas pelo COI na última avaliação das cidades candidatas, no começo de setembro. O Comitê Olímpico afirmou que as maiores deficiências do Rio estão concentradas no setor hoteleiro e nos transportes. Segundo o comitê, a cidade não terá grandes problemas para dar segurança ao evento por ter experiência em receber grandes eventos, como os Jogos Pan-Americanos de 2007, o Réveillon e o Carnaval, além de partidas da Copa do Mundo, que será disputada em 2014 no Brasil.
____________________
Três tentativas
Eleito para sediar os Jogos Olímpicos de 2016, o Rio conseguiu alcançar o feito de ser escolhido para organizar o evento depois de sucessivas derrotas de candidaturas brasileiras. Antes da vitória de ontem, foram três tentativas fracassadas do Brasil, sendo uma de Brasília e outras duas do próprio Rio.
O sonho brasileiro de sediar uma Olimpíada começou a ser acalentado em 1992. A capital Brasília se candidatou para sediar os Jogos de 2000, mas a campanha, que pretendia trazer o evento para o País no ano em que seriam comemorado os 500 anos do descobrimento, foi um fracasso - a vitória foi de Sydney, na Austrália.
Depois, foi a vez do Rio tentar sediar a Olimpíada de 2004. A cidade brasileira, porém, foi preterida antes da fase final da eleição, para a qual se classificaram Atenas, Buenos Aires, Cidade do Cabo, Estocolmo e Roma. E a vitória acabou ficando com a Grécia, voltando a receber os Jogos após 108 anos.
As cidades brasileiras desistiram de apresentar candidatura aos Jogos de 2008, mas enfrentaram uma disputa interna para ver quem iria brigar pela Olimpíada de 2012. Rio e São Paulo apresentaram propostas para o Comitê Olímpico Brasileiro (COB), que optou por dar mais uma chance para o Rio. Mas a disputa interna não impediu nova derrota precoce do Rio.
____________________
Rio herdou votos para vencer
Ao contrário de todas as previsões feitas pelo presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Jacques Rogge, a vitória do Rio foi obtida com uma ampla margem. Quando a disputa ficou restrita apenas a duas cidades, na terceira e última rodada da votação, a candidatura brasileira herdou quase todos os votos de Chicago e Tóquio, ganhando de Madri por 66 a 32.
Na primeira rodada de votação para sede da Olimpíada de 2016, ontem, em Copenhague, na Dinamarca, Madri terminou na liderança, com 28 votos. Foi seguida pelo Rio, com 26, e por Tóquio, com 22. E Chicago acabou eliminada precocemente da eleição, para surpresa de muitos que apontavam leve favoritismo da candidatura norte-americana - recebeu apenas 18 votos.
Com Chicago fora, a segunda rodada de votação já teve vitória do Rio, que herdou os votos que eram destinados à cidade norte-americana e terminou com 48 votos. Madri, por sua vez, subiu para 29 e terminou em segundo lugar. E Tóquio, com apenas 20 votos, acabou eliminado da disputa.
Assim, na última rodada da votação, com somente duas cidades na disputa, o Rio recebeu os votos de Chicago e Tóquio, somando um total de 66 votos. Madri ainda conseguiu subir um pouco, mas ficou com apenas 32 votos, menos do que a metade da rival brasileira. Ou seja, foi uma vitória incontestável do Brasil.
____________________
Competição receberá R$ 28,8 bi
O Rio de Janeiro foi escolhido ontem como sede dos Jogos Olímpicos de 2016. A previsão é de que os investimentos privados e públicos para o evento sejam de R$ 28,8 bilhões. Além disso, segundo o Ministério do Esporte, serão gerados dois milhões de empregos no país até 2027: 120 mil empregos por ano até a realização dos Jogos e 130 mil anuais a partir de 2016.
Dentro desses investimentos, estão os US$ 13,92 bilhões (R$ 24,76 bilhões) do projeto apresentado pelo governo ao COI (Comitê Olímpico Internacional). Desses, 72% correspondem ao orçamento destinado às diversas obras de infra-estrutura necessárias, incluindo as reformas do aeroporto e do metrô.