‘O meu prazer é servir a sociedade’
Prazo para viver. Só quem já passou pela experiência de ouvir isso de um médico sabe a importância de aproveitar cada minuto da vida e agradecer por esse presente de Deus. O professor, pesquisador e geneticista Esiquiel de Miranda sabe bem o que é isso.
Aos 16 anos, foi desenganado pelos médicos devido a problemas cardíacos. Mas a vontade de viver foi maior e, graças à ajuda da sociedade bauruense, ele lutou e colocou o primeiro marcapasso. Até hoje, já passou por quase dez cirurgias assim. Porém, de acordo com ele, os problemas de saúde ficam pequenos perto da alegria de viver e do maior presente que a vida lhe deu: a paternidade depois dos 50 anos.
“Ser pai na maturidade me devolveu a alegria e passei a dar valor às coisas simples, como um olhar e o simples ato de andar descalço e cuidar de plantas”, costuma dizer o reconhecido geneticista de Bauru.
A curisosa infância do menino que queria ser cientista, devoção ao pai, avô e amigos, paternidade, trabalho, realizações e projetos são os principais temas da entrevista que Esiquiel de Miranda concedeu ao Jornal da Cidade. Confira os principais trechos.
Jornal da Cidade - Como é seu trabalho hoje?
Esiquiel de Miranda - Na verdade desempenho várias atividades, mas a minha principal atividade, hoje, é a genética. Estou no Centrinho há 34 anos e, basicamente, meu trabalho gira em torno da genética e da citogenética humana, ou seja, estudo o porquê das doenças genéticas, suas causas e possíveis prevenções. Também dou aulas na pós-graduação da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) e trabalho em meu consultório particular com testes de paternidade, por exemplo. Nesses últimos quatro anos, tenho me dedicado ao estudo das células-tronco, que é o amor da minha vida profissional.
JC - Quais são os planos para esse amor?
Esiquiel - Estou empenhado em montar um laboratório de células-tronco no Centrinho. Já temos dois projetos aprovados nessa área e estamos no terceiro. Espero que consigamos realizar esse novo trabalho.
JC - Sempre quis ser cientista?
Esiquiel - Descobri minha vocação para a ciência quando tinha 11 anos de idade e li, em cima de uma goiabeira, um livro sobre a vida de Mendel. Naquele instante eu tive a certeza de que queria ser um cientista.
JC - Realizava “experiências” na infância?
Esiquiel - Fui uma criança que jogava bola porque era dono dela, ou seja, não gostava, nem sabia. Cresci na zona rural, mas nunca cacei pássaros. Eu abria sapos para mapear a estrutura interna deles. Meus exemplos foram meu pai e meu avô, que nunca freqüentaram universidades mas, na escola da vida, foram verdadeiros professores. Meu pai foi um autodidata. Aprendeu a ler e a escrever no circo, além de ter aprendido espanhol, francês e italiano com a vida. Infelizmente ele morreu cedo, mas me deixou muitos ensinamentos e autênticos valores, assim como meu avô, que sempre me deu lindas lições de vida.
JC - Que tipo de ensinamentos?
Esiquiel - Quando eu tinha 9 anos de idade, meu pai leu “O Prínipe”, de Maquiavel, para mim. Ele me contava muitas histórias, especialmente porque naquela época não havia televisão ou outras formas de entretenimento. Era um excelente contador de histórias e um sábio. Ele teve uma atitude que eu jamais esquecerei: quando reprovei pela primeira vez na escola, aos 7 anos de idade, ele veio até mim, me pegou no colo, deu-me um beijo e disse: “Filho, sei que você não passou de ano porque não estudou, como tenho a certeza de que isso não vai mais acontecer porque você vai estudar”. Me colocou no chão, beijou-me novamente, foi trabalhar e nunca mais tocou no assunto.
JC - Sua atitude mudou depois disso?
Esiquiel - Eu esperava uma bronca e ele agiu dessa forma carinhosa. Dei minha bola aos amigos e fui para Ourinhos morar com minha avó para estudar. Infelizmente, no dia 15 de outubro do novo ano, meu pai faleceu e não me viu passar de ano. Acredito que cheguei onde estou por causa dessa atitude dele. É muito importante você corrigir a criança da maneira certa. Ele não me bateu, mas me mostrou que eu era responsável por minhas atitudes. Outra coisa que ele me ensinou e que pratico até hoje é que nunca devemos acusar ninguém. Ele sempre me dizia isso. A sabedoria é nata. Gosto de dizer as seguintes frases: “Não eduque uma criança apenas para vencer na vida e sim para ser feliz. Dessa forma, ela aprenderá o valor das coisas e não o seu preço” e “Não confunda, jamais, conhecimento com sabedoria, pois um o ajuda a ganhar a vida e o outro, a construí-la”.
JC - Como você chegou a Bauru?
Esiquiel - Vim para a cidade em 1966 para fazer um curso de eletrônica no Senai, mas precisei interromper o curso porque coloquei um marcapasso. Então, procurei um emprego e entrei na faculdade de biologia. Graças ao Centrinho eu pude realizar meu sonho de ser geneticista, um dos primeiros de Bauru.
JC - Deve ter sido difícil para um garoto de 16 anos passar por uma cirurgia cardíaca.
Esiquiel - Tenho problemas de chagas devido a minha ama-de-leite, que também teve. Isso marcou minha vida porque vi meu pai falecer, aos 39 anos, por problemas no coração. Além disso, dois médicos me deram menos de dois anos de vida. Eu não tinha dinheiro para colocar o marcapasso e a cidade fez uma campanha para me ajudar. Já fiz oito ou nove cirurgias dessas.
JC - E como chegou até o curso de biologia?
Esiquiel - Quando coloquei o marcapasso, precisei mudar os rumos dos meus estudos. Tinha o sonho de fazer medicina, mas não tinha dinheiro para isso. Então, em 1975 eu comecei a trabalhar com genética no Centrinho, antes mesmo de fazer faculdade. Sempre gostei muito de biologia, então fiz o curso e depois concluí o mestrado e o doutorado em genética na Universidade Estadual Paulista de Botucatu.
JC - Já fez cursos fora do País?
Esiquiel - Tive duas oportunidades mas os problemas de saúde foram obstáculos. Porém, isso não impede que eu tenha contato com pesquisadores fora de outros países.
JC - Você está no segundo casamento.
Esiquiel - Sim. Me casei cedo, aos 22 anos, fiquei com minha primeira esposa por dezoito anos e tive dois filhos com ela. Há 11 anos estou casado com Alessandra, minha atual esposa, e descobri a felicidade novamente. Ela não podia ter filhos. Certa vez, Alessandra estava com sangramentos, fizemos a ultra-som e descobrimos que ela tinha miomas e no meio deles, uma gravidez. Ela precisou fazer uma operação com grandes chances de perder o bebê mas, graças a Deus, isso não aconteceu e no dia 5 de janeiro deste ano, nasceu Sophia.
JC - Qual é a sensação de ter um bebê já tendo filhos adultos?
Esiquiel - Indescritível. Estou um pai coruja e vou ficar assim por muito tempo. Meu maior hobby, hoje, é cuidar da Sophia. Para mim ela é uma bênção que mudou minha vida.
JC - O que mudou?
Esiquiel - Como te falei, meu pai morreu antes dos 40 anos de idade, eu achei que também não chegaria lá. Não tinha medo, mas estava preparado para viver pouco. De repente, cheguei aos 40 anos e disse: Não morri! E agora? Foi quando comecei a viver de forma diferente. Passei a aproveitar a vida e a dar valor ao que é válido e importante. Não esperava mais nada e Deus me mandou mais um filho. Nada acontece por acaso na vida da gente. Tudo tem um objetivo e Sophia me trouxe novo ânimo, novo sentido a tudo.
JC - O que passou a ser mais importante?
Esiquiel - Passei a dar mais valor a pequenos detalhes como o olhar de um amigo, saber se ele está mal ou feliz, passei a dizer mais “eu te amo” sem medo de expressar meus sentimentos. Hoje ando descalço, fico em casa com a família e amigos, cultivo minhas plantas. Enfim, coisas simples que fazem a vida faler a pena. Quando você se torna pai já com uma certa experiência de vida, tudo é diferente e mais prazeroso. Ao longo desses anos, tive muitos amigos que me ajudaram e que gostaria de agradecer. Entre eles, nomes como Abrahin Dabus, Erineu e Sofia, da livraria Sapiens, dona Celina Alves Neves, irmã Carmen Polito e a família Quaggio.
JC - Você citou Deus várias vezes. Quem é Ele para o cientista Esiquiel de Miranda?
Esiquiel - Tenho sido bastante questionado sobre isso. Para mim, Ele é um ser superior ou uma energia que coordena tudo o que existe. Quanto mais estudo, mais sinto a mão de alguém por trás de tudo. O DNA, por exemplo, que é o código da vida, é a prova concreta do que digo.
JC - O senhor já ganhou prêmios devido ao seu trabalho?
Esiquiel - Ainda não. Mas não trabalho e pesquiso por prêmios, e sim por meus pacientes e para eles. Sinto uma alegria muito grande, por exemplo, quando atendo, voluntariamente, crianças que nascem com deformidades na maternidade Santa Isabel. Para mim é como se estivesse devolvendo à comunidade aquilo que consegui com meus estudos nas universiades públicas.
JC - Um sonho atual.
Esiquiel - Seria conseguir descobrir como ligar e desligar um gene. Nisso está a cura para muitas doenças, principalmente o câncer. Existe uma expectativa muito grande em torno da biogenética, mas ainda estamos começando a querer engatinhar.
JC - Uma grande conquista.
Esiquiel - Com todas as minhas limitações de saúde, foi conseguir fazer meu mestrado e doutorado e ter montado todo o serviço de genética do Centrinho. Nunca tive medo de errar, acho que isso foi uma das chaves para a realização de todo o meu trabalho.
JC - E a maior vitória pessoal?
Esiquiel - É saber que o ser humano pode ser feliz mesmo passando por grandes problemas.