Ser

Elas preferem os comprometidos?

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 5 min

“A grama do vizinho sempre parece mais verde que a nossa”, diz um velho ditado popular a respeito da questão da cobiça. A vontade de possuir aquilo que pertence a outra pessoa é, sem sombra de dúvidas, um dos impulsos mais poderosos em nossa espécie. Tanto é verdade que as famosas Tábuas da Lei - recebidas por Moisés das mãos de Jeová, no alto do Monte Sinai - já traziam aos hebreus a recomendação expressa, conforme o relato do Livro do Êxodo: “Não cobiçarás a casa do teu próximo, nem sua mulher, nem seu escravo ou escrava, nem seu touro, nem seu jumento, nem qualquer coisa que a ele pertença”.

Passados mais de 3.500 desde aquela época, as pessoas ainda têm dificuldades para lidar com o sentimento da cobiça, principalmente quando os “objetos” cobiçados são seres humanos. Há quem defenda, inclusive, que existam razões biológicas por trás do “pecado” de se cobiçar a mulher ou homem alheio.

Um estudo na área de psicologia social realizado pelas pesquisadoras norte-americanas Jessica Parker e Melissa Burkley, da Universidade de Oklahoma, constatou que a mulheres teriam uma tendência a se interessar por homens comprometidos, justamente pelo fato de eles já estarem em um relacionamento estável.

Elas reuniram grupos de 200 pessoas (100 homens e 100 mulheres) para um estudo em grupo. No decorrer dos testes e questionários, as pesquisadoras perceberam que 90% das mulheres solteiras passavam a demonstrar mais interesse por um homem ao descobrirem que ele era comprometido.

Entre os homens, ao contrário, o fato de a mulher ter ou não um parceiro fixo tinha uma relevância menor. De acordo com o estudo, 59% dos entrevistados admitiram sentir interesse por mulheres comprometidas.

Uma das hipóteses levantadas pelas estudiosas para essa forte atração exercida pelos “indisponíveis” sobre as mulheres entrevistadas estaria no fato de que os rapazes comprometidos já haviam dado mostras de que estão dispostos a encarar um relacionamento sério - quer dizer, estão a fim de casar, formar uma família, cuidar de crianças.

Oras, mas se esse homem é tão afeito a um relacionamento sério, como se deixaria levar pelo canto sedutor de outra mulher? Agindo assim, não estaria dando provas de que era um “mau partido”? Parker e Burkley acreditam que quando as mulheres dão em cima de um rapaz de família, porém “ciscador”, estão agindo, na verdade, de forma altruísta. De acordo com elas, a “outra” estaria nada mais nada menos do que tentando salvar a “atual” de um mau relacionamento.

As estudiosas chegaram a considerar até a possibilidade de que as mulheres que se disseram interessadas pelo homem alheio estavam, na verdade, em busca de novos desafios para suas vidas. A adrenalina estaria justamente em “tomar” o parceiro de outra pessoa e provar ao mundo que é melhor enquanto “fêmea”.

Embora as hipóteses das pesquisadoras venha obtendo considerável repercussão entre os norte-americanos estão longe de conseguir adeptos no Brasil, especialmente entre as nossas mulheres.

A reportagem ouviu bauruenses a respeito desse assunto e constatou que, para as nossas solteiras, os “indisponíveis” são sinônimos de dor de cabeça. “Homem comprometido significa problema”, afirma a cuidadora de idosos Leonice Gonçalves, 40 anos.

“Homem comprometido pode interessar às mulheres que querem apenas passar um tempo. Para mim, que busco um relacionamento fixo, não serve”, garante Elaine Ribeiro, 44 anos.

Entre os homens, a percepção é bem distinta. “Muitas mulheres buscam, sim, homens comprometidos. É uma espécie de aventura para elas, buscar aquilo que pertence a outra pessoa”, acredita o empresário Cléber Cristiano Pereira, 30 anos.

Há, inclusive, quem admita que a mulher alheia possa também ter mais atrativos que as solteiras. “Se uma garota muito bonita passa sozinha pela rua, os caras até olham. Se ela vai acompanhada, porém, todo mundo fica de olho grande, imaginando: ‘O que será que esse sujeito fez para conquistar essa mulher?’”, diz o empresário Henrique Tavares, 30 anos.

____________________

Monogamia x poligamia

Apesar de, hoje em dia, predominar em nossa espécie o padrão monogâmico de relacionamento - somos monogâmicos seqüenciais, ou seja, costumamos ter um parceiro fixo no decorrer de determinado período -, é difícil dizer que o ser humano segue este ou aquele padrão de comportamento sexual.

“Na espécie humana, é possível se encontrar de tudo. Os padrões variam de acordo com a cultura em que se manifestam”, afirma a bióloga Fátima do Rosário Nashenveng Knoll, professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.

Se, em boa parte dos países do Ocidente, predomina o velho modelo da família nuclear (marido, mulher e filhos), em algumas tribos do Tibet, na Ásia, é possível se encontrar grupos em que uma mulher monopoliza para si diversos homens.

“Devido às difíceis condições de vida que existem naquela região, não há recursos suficientes para atender às necessidades de um grande número de pessoas. Para evitar que população cresça demais, uma única mulher passa a se relacionar com diferentes homens da mesma família. Dessa forma, garante que aquele clã irá se perpetuar e evita que um grande número de crianças venha ao mundo”, explica Knoll.

Se o contrário ocorresse, ou seja, um só homem monopolizasse várias mulheres, é provável que o povo tibetano estivesse fadado a sucumbir diante da falta de recursos. Segundo estudiosos, o homem que mais procriou, ao longo da história humana, foi o sultão do Marrocos Moulay Ismail (1672 a 1727). Ele teria sido pai de 888 crianças (548 meninos e 340 meninas). Para alcançar essa proeza, precisou desposar aproximadamente 500 mulheres.

Ainda de acordo com pesquisadores, a mulher que mais deu à luz, em todos os tempos, ficou bem atrás de Moulay Ismail. Uma russa, que viveu no século 18, teve 69 filhos, em 27 partos. Foram 16 gêmeos, sete trigêmeos e quatro quadrigêmeos.

Comentários

Comentários