O fato de estarmos em uma sociedade machista às vezes nos impede de perceber que é a mulher quem dá as cartas nas questões de amor e sexo. Via de regra, é ela quem escolhe o parceiro. Quem a investiu desse poder foi a natureza, por uma razão bastante simples: se as coisas derem errado no relacionamento, ela terá muito mais a perder que o homem.
“Entre os mamíferos, as fêmeas costumam produzir gametas maiores que os dos machos, e em quantidade bem menor. Elas também têm um ciclo reprodutivo muito mais curto. Além disso, precisam destinar parte significativa de suas próprias energias para o desenvolvimento da prole, durante a gestação e a amamentação”, explica Fátima do Rosário Nashenveng Knoll, professora do curso de ciências biológicas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.
Se um indivíduo produzir menos de 13 milhões de espermatozóides (célula reprodutiva masculina) por milímetro cúbico de esperma será considerado estéril, segundo critérios da Organização Mundial de Saúde (OMS). Um sujeito fértil costuma apresentar acima de 48 milhões de gametas por milímetro cúbico de sêmen. Cada vez que o homem ejacula, novas células reprodutivas são produzidas pelos testículos.
Nas mulheres, a quantidade de gametas é limitada. Um feto do sexo feminino com 24 semanas de idade possui entre 7 e 20 milhões de óvulos em seus ovários. Na medida em que a criança se desenvolve, essas células vão se atrofiando, até restarem “somente” 2 milhões de gametas, no momento do em que o indivíduo nasce.
Quando a menina tem sua primeira menstruação, ela terá cerca de 400 mil óvulos em seus ovários, do quais aproximadamente 400 serão liberados ao longo de sua vida reprodutiva. Enquanto um senhor de 80 anos idade é capaz de se tornar pai pelas vias naturais, a mulher só tem condições de engravidar até os 49 anos (e com grande dificuldade). “Ela tem de analisar muito bem, pois uma escolha errada poderá ‘custar caro’ demais”, afirma Knoll.
De acordo com a professora, dois fatores principais costumam ser levados em conta pelas fêmeas dos mamíferos na hora de escolher o parceiro. “Ou elas irão se basear na genética (e isso irá variar segundo a espécie) ou na capacidade de o macho prover recursos e colaborar nos cuidados com a prole”, afirma.
Quando a genética é levada em conta, entram em jogo fatores que, na espécie humana, costumamos definir como beleza (a proporcionalidade entre as partes do corpo, força física, altura, pelagem vistosa etc.). Na verdade, porém, o que a fêmea irá considerar é a capacidade que o macho tem produzir descendentes fortes e aptos a sobreviverem a doenças e aos ataques dos predadores.
Já quando se pensa na capacidade de o parceiro colaborar nos cuidados com a prole, é possível se pensar em um progenitor que se mostre disposto a enfrentar um predador feroz para defender seus filhotes ou em um macho que se esforça ao máximo para trazer alimentos aos seus sucessores.
Transposto para a realidade de nossa espécie, essa capacidade de prover recursos poderia talvez se materializar na forma de carros de luxo, roupas de grife ou cartões de crédito com limites estratosféricos. Porém, nem toda regra é infalível.
“Entre os seres humanos, há grandes evidências de que os padrões biológicos vigorem, mas existem exceções. Sempre haverá pessoas dispostas a viverem segundo a lógica de ‘um amor, uma cabana’”, pondera a professora.
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Atração sexual
Segundo o antropólogo Cláudio Bertolli Filho, professor do Departamento de Ciências Humanas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, várias teorias tentam explicar os mecanismos que a influenciam a atração sexual entre as pessoas.
“Se tomarmos por base a filosofia do ‘essencialismo biológico’, por exemplo, poderíamos dizer que os indivíduos buscam parceiros com genes totalmente diferentes dos seus, com o objetivo de criar um perfil genético mais resistente a tudo que existe na natureza”, afirma.
De acordo com Bertolli, é possível procurar nos padrões historicamente definidos as razões para a atração sexual. “Beleza é um conceito que varia, ao longo dos séculos. Na Grécia antiga, era sinônimo de formas perfeitas, dentro daquela idéia de proporções racionalmente definidas. Em Roma, o belo equivalia à robustez, no sentido militar da coisa. No mundo medieval, os padrões giravam em torno da idéia de castidade, pureza e associação com o divino. Já no capitalismo, em que as relações humanas são mediadas por mercadorias, os modelos estão ligados às noções de poder e riqueza”, explica.
Bertolli, porém, acredita que as relações humanas também podem ser encaradas a partir de uma outra dimensão. “A atração sexual é possível de ser racionalizada?”, questiona. “Por que uma pessoa escolhe ‘A’ ou ‘B’ entre tantos milhões de indivíduos disponíveis mundo afora? Categorias como corpo atlético, riqueza e poder constituem-se como regra ou exceção em uma sociedade? As regras existem, sim, mas raramente são praticadas”, argumenta.
Na opinião dele, o amor pode ser descrito como um processo aleatório que as pessoas sempre tentam racionalizar, mas só são capazes de sentir. “Você já se perguntou por que os casais apaixonados passam tanto tempo acariciando as mãos uns dos outros e repetindo ‘Eu te amo’? Isso ocorre porque o amor é uma sensação que não somos capazes de explicar. É como querer descrever racionalmente uma dor intensa, o gozo sexual ou a fé. Não há palavras, pois o que impera é a ausência de razão”, conclui.
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Casamento
A psicóloga bauruense Maria Lúcia Bien acredita que o desejo de constituir família estaria por trás da atração que as mulheres solteiras sentem pelos rapazes comprometidos. “O homem casado é aquele que a mulher vislumbra porque ela pretende se casar. Um indivíduo nessas condições já deu provas de que está disposto a assumir um relacionamento sério, sem contar que, na maioria das vezes, já possui certa estabilidade financeira”, explica.
Segundo ela, as mulheres ainda carregam consigo a idéia do homem protetor, disposto a lhe oferecer uma vida tranqüila. “Ela dificilmente irá se interessar por um sujeito que ficará o tempo todo na dependência dela”, afirma Bien.
Essa seria a principal razão, de acordo com ela, para o fato de os solteiros não despertarem tanto interesse no público feminino. “Hoje em dia, se analisarmos bem, veremos que boa parte dos homens na faixa dos 30 anos de idade ainda não conseguiu se estabelecer financeiramente. Muitos, na verdade, ainda moram com os pais. Além disso, por estarem sempre disponíveis às mulheres, passam a impressão de que não estão dispostos a assumir relacionamentos sérios”, diz Bien.