Geral

Lixo: fonte de alimento para famílias

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 8 min

Neste final de semana, como de costume, muitas famílias se reuniram para almoçar e passar bons momentos. Pode parecer coincidência, mas esta matéria trata justamente de alimentação - é bem verdade, que de um ângulo não muito prazeroso.

Não falaremos sobre receitas nem daremos dicas sobre como deixar mais saborosa a boa e velha macarronada da vovó. O que interessa aqui é o depois, ou seja, os alimentos que você, eu e os demais bauruenses não fomos capazes de comer. Em geral, as sobras de nossas mesas têm um destino certo. Serão jogadas no lixo, onde passarão a servir de nutrientes para vermes, fungos, insetos e toda sorte de organismos menos evoluídos que nós, seres humanos.

Ainda hoje, porém, em pleno século 21, essas espécies inferiores precisam ser rápidas se quiserem garantir o seu “pão de cada dia”. Há sempre o perigo de que algum ser humano socialmente vulnerável tente se apoderar primeiro da comida por nós rejeitada.

Em Bauru, o lixo é fonte de vitaminas, proteínas, lipídios e sais minerais para diversas famílias. “Quando você pede e não consegue ajuda, não tem outro jeito senão comer os restos que achamos nas ruas”, explica a catadora de materiais recicláveis Adrieli Carlos Souza, 20 anos, mãe duas crianças, João Vítor, 3 anos, que adora comer de tudo, e Gustavo, 2 anos, que, a exemplo de outras crianças da mesma idade, não é muito chegado em legumes e verduras.

Adrieli é casada há cerca de três anos, mas o marido está preso por roubo. Para sustentar os filhos, ela apanha materiais recicláveis pelas ruas. “Serviço não tem. Além disso, não consigo creche para os meninos. Faz dois anos que eles estão na lista de espera, mas as vagas nunca saem. O jeito é carregá-los comigo quando vou catar papelão”, afirma.

Ela não sabe precisar quando foi a primeira vez que teve de comer alimentos encontrados no lixo, mas lembra-se muito bem da cena. “Eu estava empurrando meu carrinho, aqui perto (no Centro), e fui revirar a lixeira de um restaurante. Quando abri o saco, vi aquele mundo de comida. Não estava estragada. Na verdade, até que estava bem limpa”, conta.

Adrieli não pensou duas vezes e mandou as sobras “para dentro”. Sentiu nojo? “No começo a gente fica com um pouco de receio, mas depois se acostuma”, reflete. “Acima de tudo está a fome. Não adianta ter nojo. Se não for desse jeito, a gente morre”, acredita o guardador de carros Fernando Adão da Silva, 33 anos, outro que costuma se fartar com as sobras que encontra no fundo das lixeiras. Ao que parece, Fernando nunca passou mal após comer alimentos retirados do lixo. “Com o tempo, o estômago se acostuma”, diz.

Segundo Adrieli, seus filhos também podem ter se tornado imunes à ação dos fungos e bactérias. “Os dois foram criados no meio do lixo e nunca ficaram doentes”, garante. No passado, quando ainda não precisava revirar dejetos para ganhar a vida, ela não era muito fã de macarrão. “Depois que entrei nessa vida, não rejeito mais nada que me oferecem”, afirma.

Não que exista muita gente disposta a oferecer comida a pessoas como Adrieli. “Muitas vezes, acontece de eu bater palma numa casa para pedir comida e me responderem: ‘Vai trabalhar, sua vagabunda’”, garante.

“Aqui (na praça Rui Barbosa), a única ajuda que a gente tem é do povo das barraquinhas”, afirma Fernando. Ele se refere a vendedores ambulantes de alimentos como Reinaldo Costa, 48 anos. “Quase todos os dias, essa gente vem até meu carrinho pedir algo para comer. Eu acabo dando. Afinal, não custa nada um lanche a mais ou a menos. Se dessem oportunidade para essas pessoas trabalharem, talvez não precisassem pedir”, acredita o comerciante.

Supermercado

Em vez de vasculhar lixeiras, o engraxate Maximiano Aparecido Correia, 31 anos, prefere buscar sua sobrevivência nos dejetos dos supermercados. “Nunca fiquei sem ter o que comer”, garante. Legumes, frutas e verduras descartados pelos estabelecimentos se convertem na principal fonte de calorias do morador de rua.

“Todos os dias, no final da tarde, vou até os supermercados e apanho aquilo que seria jogado fora. Para falar a verdade, encontro muita coisa ‘de primeira’. É só você colocar um tempero caprichado e a comida fica ótima”, garante.

____________________

Grande desafio é combater as desigualdades

Se no passado a fome era encarada como uma questão de mérito pessoal, passível de ser resolvida por meio de ações de caridade, hoje passou a ser vista como um problema social que só será solucionado com políticas públicas capazes de atacar as enormes desigualdades de renda existentes no País.

“O Brasil tratava a fome como um problema que só dizia respeito ao indivíduo. As pessoas banalizavam questões como pobreza e miséria. A partir dos anos 80, com a nova Constituição, esse assunto passou a ser encarado a partir da ótica do direito e das políticas públicas”, afirma Egli Muniz, diretora da Faculdade de Serviço Social da Instituição Toledo de Ensino e ex-secretária municipal de Bem-Estar Social.

Na opinião do presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea), Renato Maluf, a fome que ainda assola grande parte dos brasileiros é resultado dos altos índices de pobreza existentes no País, aliados à alta concentração de riqueza nas mãos de uma pequena parcela da população.

“Nos últimos seis anos, essa situação tem mudado bastante devido a vários fatores: os programas governamentais de transferência de renda, a elevação do poder de compra do salário mínimo, o incremento da merenda escolar e o avanço dos programas de incentivo à agricultura familiar”, afirma Maluf.

Ele virá a Bauru, no final do mês, para participar do Seminário sobre Segurança Alimentar, que será realizado pelo Serviço Social do Comércio (Sesc) de Bauru. Entre os temas a serem discutidos no seminário está a campanha do Consea pela aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 47/2003. O projeto visa transformar a alimentação em um direito básico dos brasileiros. Até o momento, foram coletadas aproximadamente 40 mil assinaturas favoráveis.

A proposta passou pelo Senado e aguarda aprovação na Câmara dos Deputados. Renato Maluf está certo de que a PEC será aprovada em breve. Interessados podem assinar o abaixo-assinado no site do Consea: http://www.planalto.gov.br/consea.

Assistência social

A secretária municipal de Bem-Estar Social, Darlene Tendolo, acredita que, atualmente, não existe fome em Bauru. “Fome é quando a pessoa não tem um alimento sequer para comer. É uma situação parecida com aquela que se deu na Etiópia, nos anos 80, ou na Somália, na década de 90”, afirma.

Na opinião dela, o fato de muita gente na cidade precisar revirar lixeiras para ter o que comer é resultado da falta de informação.

“As pessoas não sabem que a assistência social é um direito garantido em lei. Elas não deveriam ficar esperando que alguém lhes dê comida, mas sim buscar auxílio nos locais adequados”, acredita.

A secretária afirma que se algum indivíduo procurar ajuda na secretaria, alegando não ter o que comer, será imediatamente atendido. “Garanto que essa pessoa receberá alimentos na mesma hora e ainda passará a ser acompanhada de perto por profissionais qualificadas”, diz Tendolo.

De acordo com a secretária, o objetivo principal da assistência social não é atender apenas às necessidades imediatas do sujeito socialmente vulnerável. “Lutamos para resgatar as famílias e potencializar os indivíduos, de forma que eles possam se organizar e lutar por melhores condições de vida”, explica.

____________________

Água e cachaça para enganar a fome

Débora Cristina, 28 anos, e Camila Oliveira, 37 anos, moram sob o viaduto da avenida Nuno de Assis e ganham a vida da coleta de materiais recicláveis. Na tarde da última quarta-feira, as duas cozinhavam em uma espécie de fogão improvisado. No cardápio, arroz, feijão, abóbora e carne de panela.

“O arroz, o feijão e a abóbora eu comprei no mercado. A carne eu peguei numa churrascaria que tem aqui perto. Eles colocaram do lado de fora, iam jogar no lixo. Resolvi trazer para cá. Está limpinho e cheira bem”, afirma Camila.

As incursões à lixeira do restaurante são constantes entre os “moradores do viaduto”. “Ontem, peguei um monte de salgados que eles iam jogar fora”, diz Débora, enquanto exibe uma caixa de isopor repleta de croquetes, esfirras e coxinhas, já um tanto murchas.

De acordo com Camila, os empregados do estabelecimento não são lá muito hospitaleiros com ela. “Outro dia, disseram que iam me quebrar ‘no pau’”, afirma. Às vezes, elas não conseguem furar o cerco dos funcionários do restaurante. Para piorar, recebem “migalhas” pela coleta de recicláveis.

“O papelão não vale nada. Pagam R$ 0,05, o quilo. Para ganhar R$ 10,00 ao dia, tenho de dar pelo menos umas quatro viagens, com o carrinho lotado”, afirma Débora.

Se não encontrarem nada no lixo e não conseguirem apanhar uma quantidade significativa de papelão, a única solução para elas é apertar o cinto. “A gente bebe água e deita na cama para tentar esquecer da fome”, explica Camila.

“Não tem fome que a cachaça não engane”, brinca Débora. As duas são casadas e dividem o espaço com mais um casal. Elas possuem ainda um animal de estimação, a cadela vira-latas Menina.

Como era de se imaginar, o local não conta com energia elétrica nem água encanada. Para tomar banho e lavar a roupa, eles utilizam uma bica de procedência duvidosa que deságua no Rio Bauru, ao lado da rodovia Marechal Rondon. “A água é fria, mas é melhor do que ficar sujo. Pobreza não é sinônimo de porquice”, pensa Débora.

Comentários

Comentários