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Estudo de envelhecimento celular rende Nobel de Medicina a trio


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Londres - O Prêmio Nobel em Medicina ou Fisiologia deste ano contempla descobertas sobre um sistema usado pelas células para corrigir seus próprios erros de projeto. Sem os telômeros, que mais parecem tampinhas de garrafa na ponta dos cromossomos (as estruturas que carregam o DNA), organismos complexos como os seres humanos rapidamente ficariam sem seu material genético.

Esses “arremates” dos cromossomos, bem como a molécula que ajuda a montá-los, a telomerase, têm um elo importante com o envelhecimento das células e sua capacidade de multiplicação. O sistema é um bocado importante para entender e combater doenças como o câncer, situação em que esses processos saem dos trilhos.

Tudo isso mais do que justifica a láurea concedida pelo Instituto Karolinska, na Suécia, aos americanos Elizabeth “Liz” Blackburn, Carol Greider e Jack Szostak. Cada membro do trio vai receber um terço do prêmio, no valor de 10 milhões de coroas suecas (cerca de US$ 1,5 milhão). Nos mais de cem anos do prêmio, só dez mulheres foram laureadas (já incluindo Blackburn e Greider).

Como quase sempre acontece na ciência de ponta, Greider, de 48 anos, contou que sua pesquisa começou com o desejo de entender como as células funcionam, e não com a intenção de intervir diretamente em doenças humanas. “Financiar esse tipo de ciência baseada na curiosidade é muito importante”, afirma ela, hoje professora da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos.Szostak, de 56 anos, concorda. “Não tínhamos idéia de todas as implicações posteriores”, diz o pesquisador, hoje na Escola Médica de Harvard. Já Liz Blackburn, 60, da Universidade da Califórnia em San Francisco, declarou: “A pesquisa em si não muda nada, claro, mas é ótimo receber esse reconhecimento e partilhá-lo”.

Pesquisadores brasileiros comentam a importância dos trabalhos premiados.

“É possível comparar os telômeros às pontinhas de plástico do cadarço de um tênis”, diz o médico Rodrigo Saloma Rodrigues, pesquisador dos NIH (sigla inglesa para Institutos Nacionais de Saúde), nos EUA. “Por causa da maneira como o nosso DNA é replicado (copiado), as pontas dos cromossomos deveriam ficar de fora desse processo, o que levaria à perda progressiva do DNA. Os telômeros impedem que isso aconteça, assim como as pontas de plástico impedem que o cadarço fique esgarçado”, diz. Em geral, a divisão celular faz com que as gerações de células ganhem telômeros cada vez mais curtos.

Isso só não vale para alguns tipos especializados de células, como as oriundas da medula óssea, que dão origem aos vários tipos celulares do sangue. Para se manterem “jovens”, tais células empregam a telomerase para evitar que seus telômeros sejam encurtados. “Fazer com que uma célula normal produza telomerase pode torná-la imortal”, conta Rodrigues. Aliás, não há nada de bom nisso: a imortalidade celular é típica do câncer. Por isso, entender a interação entre telômeros e telomerase pode inspirar novas drogas contra tumores.

Professora de Botucatu

Maria Isabel Cano, professora do Departamento de Genética da Unesp de Botucatu, teve dois bons motivos para comemorar o Nobel de medicina. Além de estudar telômeros, ela fez seu pós-doutorado com Liz Blackburn, uma das ganhadoras.

“A sensação é de orgulho”, diz Cano. “A Liz é uma pessoa muito simples, amável, de fácil trato. Nunca agiu como estrela e sempre deu atenção a todos os alunos, do pessoal da graduação aos pós-doutorandos”, conta.

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