Deus disse a Abraão que, por meio dele, “... todos os povos da Terra serão abençoados” (Gênesis 12:3). A grande questão é: O que significa isso? Que bênção é essa? O grande problema de fazer a análise narrativa, discursiva e literária do texto bíblico, tentando buscar o “parecer do sentido”, é fazer da Bíblia um livro comum como outro qualquer. Geralmente, os críticos da Bíblia tentam desacreditá-la, seja usando a história, a filosofia ou qualquer outra ciência humana. Nenhum livro sofreu tantos ataques e críticas como a Bíblia. Entretanto, ninguém consegue perceber o conteúdo verdadeiro da Palavra de Deus, o seu conteúdo espiritual.
Não estou aqui para desafiar ou muito menos desacreditar a competência de ninguém. Também não existe nenhuma falta de ética em expressar uma opinião a uma entrevista, muito bem escrita por sinal, em que os pensamentos centrais do estudo e do livro foram colocados claramente. Ética é o estudo dos juízos de apreciação referentes à conduta humana suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente a determinada sociedade, seja de modo absoluto (Dicionário Aurélio Século XXI). Será que não podemos discordar? Será que a ciência - a deusa de muitos que desejam viver suas vidas sob o signo da razão - pode trazer todas as respostas? É a semiótica infalível em suas percepções ou análises? Não estou aqui para duvidar de ninguém, mas ninguém pode dizer que é anti-ético expressar uma opinião contrária. Não preciso ler o livro, pois as idéias centrais foram apresentadas e, pelas idéias, não concordo com a digníssima doutora Mariza. Podemos discordar dos outros, pois não somos obrigados a concordar com tudo. Discutir idéias e não pessoas exige algo que a grande maioria dos grupos e pessoas hoje não sabem fazer: discutir com maturidade os assuntos. Portanto, não é crime defender os princípios bíblicos. Respeito não significa aceitação.
O que Deus queria dizer a Abraão? Isso a semiótica não pode responder, mas a Bíblia sim. Abraão seria o Pai da nação onde o Messias prometido viria. Jesus Cristo é a bênção às nações. Ele é o “Emanuel” (Isaías 7:14). Ele é o menino que nos foi dado e que tem o domínio, que será “... chamado Maravilhoso Conselheiro, Deus Poderoso, Pai Eterno, Príncipe da Paz” (Isaías 9:6); Ele é o “... filho de Abraão” (Mateus 1:1). Como profetizou Isaías: “Por isso o Senhor, que redimiu Abraão, diz à descendência de Jacó: ‘Jacó não será mais humilhado; e o seu rosto não tornará a empalidecer. Quando ele vir em seu meio os seus filhos, a obra de minhas mãos, proclamará o meu santo nome; reconhecerá a santidade do Santo de Jacó, e no temor do Deus de Israel permanecerá. Os desorientados de espírito obterão entendimento; e os queixosos vão aceitar instrução’.” (Isaías 29:22-24). Jesus Cristo veio para proclamar o nome de Deus, manifestar a vontade dEle, de modo que os homens viessem a obter entendimento (literalmente no texto hebraico, compreensão, a percepção da palavra) e instrução (no hebraico, serão persuadidos, ensinados). A mensagem a todos é clara: “De novo terás compaixão de nós; pisarás as nossas maldades e atirarás todos os nossos pecados nas profundezas do mar. Mostrarás fidelidade a Jacó e bondade a Abraão, conforme prometeste sob juramento aos nossos antepassados, na Antigüidade” (Miquéias 7:19,20). Onde está a compaixão de Deus? Em Cristo. Onde Deus pisou nossos pecados e nos perdoou? Na cruz de Cristo. Onde Deus fez o juramento do Messias? A Abraão em Gênesis 12, cumprido na pessoa histórica e real de Jesus Cristo.
Não estou fazendo nenhum desafio. Se a doutora Mariza ficou magoada, quero lhe dizer que me perdoe, pois meu desejo não era desacreditá-la, mas mostrar que a Bíblia tem outra visão. Desejo terminar lembrando as palavras de Paulo a todos: “Assim também as promessas foram feitas a Abraão e ao seu descendente. A Escritura não diz: ‘E aos seus descendentes’, como se falando de muitos, mas: ‘Ao descendente’, dando a entender que se trata de um só, isto é, Cristo” (Gálatas 3:16). Cristo é a bênção de Abraão a todas as nações.
Gilson Souto Maior Junior - pastor sênior da Igreja Batista do Estoril e professor de Antigo Testamento da Faculdade Teológica de Bauru - Fateo