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Nobel da paz mulato

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Foi uma surpresa a concessão do Prêmio Nobel da Paz a Barack Obama. Nem sequer completou um ano na Casa Branca. Nenhuma obra acabada em prol da paz mundial pode lhe ser atribuída. Ganhou por quê? No Brasil, brasileiro, de Ary Barroso, seria um “mulato inzoneiro”, igual a mexeriqueiro, mentiroso. “O Brasil é o inferno dos pretos, o purgatório dos brancos e o paraíso dos mulatos”, observou o jesuíta italiano André João Antonil (1711) no seu clássico “Cultura e opulência no Brasil por suas drogas e minas”. Atestava o quanto o Brasil da época já era uma sociedade miscigenada. Os Estados Unidos, que não têm nada de amalgamista elegeu um presidente mulato que agora conquista o Nobel da Paz. Obama confessa-se “mulato nato/ no sentido lato. Mulato democrático do litoral”, repetindo como um mantra afro os versos de “Sugar cane fields forever”. Caetano Veloso disse que Obama quer “imitar os brasileiros. E muitos brasileiros querem imitar os EUA pré-Obama”. Um retrocesso.

Ao que tudo indica, a comissão formada para a outorga desta distinção do Instituto Nobel da Noruega tenha levado em alta conta a visão de mundo do presidente dos Estados Unidos. Diga-se, completamente diferente do seu antecessor George W. Bush. Logo que assumiu, Obama chamou a atenção para o aumento das desigualdades entre os seus próprios cidadãos, e a necessidade de deter os indicadores sociais decrescentes. O ex-presidente Bush sonhou com um século XXI dominado pela potência imperial dos Estados Unidos. Obama já vê um mundo multipolar, com os Estados Unidos somando-se a outras potências democráticas. Bush usou como instrumento da sua preferência na política externa, a guerra preventiva. Invadiu o Iraque sob este pretexto. Obama opta pelo diálogo e a conversação. Os continentes mais pobres foram ignorados por Bush. Obama pensa que o desenvolvimento do Terceiro Mundo é a chave para garantir a liberdade, a segurança e a riqueza dos norte-americanos. Bush esteve preocupado em garantir fontes de abastecimento de petróleo para os EUA, Obama assumiu a luta contra as mudanças climáticas e a promoção das energias renováveis como imprescindíveis à sobrevivência da espécie humana.

Em nove meses de governo Obama reconciliou os Estados Unidos com a Europa, Rússia e China. Dirigiu mensagens de boa vontade ao mundo árabe e muçulmano. Finalmente um governante norte-americano disse com todas as letras aos israelenses, que sem o nascimento de um Estado palestino digno desse nome, nunca poderão ter a paz duradoura. Obama renunciou ao escudo antimísseis na Polônia e deu os primeiros passos para desmantelar a vergonhosa prisão de Guantânamo. Começou a retirar suas tropas do Iraque e proclamou ao mundo seu objetivo de diminuir o arsenal atômico. Falta o Afeganistão dos talibans, de Bin Laden, o verdadeiro inimigo, responsável pelo terror das Torres Gêmeas.

A América Latina também foi contemplada pelo atual Nobel da Paz, que já demonstrou ser contra o golpe de estado em Honduras. Deixou claro que não pode ser mais tolerado que se deponham presidentes democraticamente eleitos, pela força das armas. Até o presidente Lula já se considera íntimo do seu colega norte-americano que o chamou de “o cara”. O gesto carinhoso é uma demonstração de quem quer apertar os laços.

Bush foi o lado escuro e intolerante dos Estados Unidos para milhões de habitantes do planeta. Obama representa o lado luminoso e a boa vontade para o diálogo. Passado o impacto da surpresa houve a reflexão. Por tudo isso, Obama ganhou o Prêmio Nobel. O mundo aplaude. Aqui, continuamos defendendo a mulatice. Somos todos mulatos, graças a Deus. Walt Whitman que celebra e exalta os Estados Unidos predisse que o vértice da humanidade será o Brasil. Rabindranath Tagore, poeta e pensador hindu profetizou que “A civilização do amor nascerá no Brasil”. Resta-nos ter fé... e esperar. Quem sabe, no projeto político deste país o negro, o mulato deixem de entrar somente no lado lúdico do discurso. Do samba, da capoeira.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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