Educar para o meio ambiente, para o trânsito, para o empreendedorismo e para a cidadania. Ensinar língua portuguesa, matemática, física, química, história e também como fazer sexo, como ser um bom filho e como se comportar nas ocasiões sociais. Por essas múltiplas tarefas, que jogam para escanteio a missão de orientar os alunos no processo de construção do conhecimento, os professores paulistas empregados na rede pública ganham salário inicial de aproximadamente R$ 750,00.
A renda, equivalente a um salário mínimo paulista e meio, somada a uma realidade que inclui violência e falta de condições de trabalho, leva muitos profissionais do magistério a se sentirem de mãos atadas. Numa sociedade que não prioriza a cultura e o saber, eles têm a ingrata tarefa de formar cidadãos críticos e conscientes de seu papel no mundo.
“Quando pego os materiais didáticos que a Secretaria Estadual de Educação nos envia, fico imaginando: ou sou muito azarado ou esse tipo de aluno que o governo idealiza - curioso, bem informado, participativo - simplesmente não existe”, brinca o professor do ensino médio Almir Ribeiro, 49, que leciona história em escolas particulares e estaduais em Bauru.
“Você pode repetir centenas de vezes que a criança deve estudar, mas os pais não estarão nem aí. Para falar a verdade, o descaso das pessoas em relação à nossa profissão nunca foi tão grande como hoje em dia”, acredita a professora do ensino fundamental Míriam de Souza Silva dos Santos, 48 anos, que atualmente trabalha na Escola Estadual (EE) Ana Rosa Zuicker D’Anunzziata, no Parque Paulista (zona leste de Bauru).
A diretora do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (cuja sigla é Apeoesp) Suzi da Silva atua há 15 anos no magistério. Antes de se tornar professora, trabalhou como inspetora de alunos em escolas públicas.
“Certa vez, encontrei uma professora dando pulos de raiva. Ela havia dito aos alunos, durante a aula, que eles só seriam alguém na vida se estudassem. Então, um deles resolveu provocar: ‘O que a senhora ganha de salário eu recebo de tíquete-refeição no meu serviço’”, conta Silva. Esse episódio se deu há quase duas décadas.
Segundo a sindicalista, de lá para cá, a situação teria piorado cada vez mais. “Em muitos casos, o magistério deixou de ser uma profissão. Virou ‘bico’”, afirma. Silva se refere ao fato de muitos professores serem obrigados a se desdobrar em duas ou até mais jornadas para terem uma renda digna. Míriam, por exemplo, cumpre duas jornadas, em um total de 50 horas semanais, sendo 20 na rede municipal e 30 na estadual.
Atualmente, o valor máximo pago pela Prefeitura de Bauru aos professores é de R$ 3.000,00, por uma jornada de 40 horas semanais. Na rede particular, alguns profissionais chegam a ganhar até R$ 6.000,00 mensais dando aulas para o ensino médio. Para tanto, porém, precisam muitas vezes trabalhar em diferentes lugares.
“O mercado anda muito disputado”, avalia o presidente do Sindicato dos Professores de Bauru (Sinpro-Bau), Sebastião Clementino da Silva, o Macalé. A entidade representa aproximadamente 4.500 professores das instituições particulares de ensino da região central do Estado.
Na rede particular, a remuneração dos professores costuma variar de acordo com as condições financeiras da escola. No caso da educação infantil, vigora o piso de R$ 720,00 ao mês, pela jornada de 20 horas semanais - algo muito próximo ao que a prefeitura paga aos profissionais em início de carreira. Porém, que esse valor pode ultrapassar R$ 2.000,00, nas instituições de maior poder aquisitivo.
Nivaldo Aranda, que dá aulas de língua portuguesa no ensino fundamental do município, conta que já foi questionado pelos alunos, a respeito de seu salário. “Nunca tive coragem de responder a quantia exata. Informo um valor aproximado. Em geral, os estudantes ficam espantados, já que as mães de muitos deles não consegue ganhar sequer um salário mínimo por mês”, explica.
Ele se recorda de uma ocasião em que teve de utilizar uma tira humorística em sala de aula. “O pai perguntava para o filho o que ele iria ser quando crescesse. O menino respondia: ‘Ladrão’. Então, o pai emendava: ‘Você vai ter de estudar muito para chegar lá’”, conta.
Para Aranda, existe algo ainda mais angustiante que o baixo salário. “Nosso trabalho já não é mais visto em relação ao conhecimento de fato. O aluno perdeu a noção de que precisa estudar. Por exemplo, minha esposa leciona matemática na rede pública. Quando ela vai ensinar alguma equação, é comum ouvir dos alunos: ‘Que serventia isso terá em minha vida?’”, afirma.
Professores ouvidos pela reportagem foram unânimes em criticar o regime de progressão continuada, implantado em 1998 pelo Governo de São Paulo nas escolas públicas do Estado. “Do jeito como a coisa foi feita, o sistema se transformou em promoção automática. O aluno sabe que passará de ano, mesmo que não estude”, pensa Silva.
Ao longo da semana, a Secretaria Estadual de Educação foi procurada pela reportagem para comentar a respeito da situação do magistério na rede estadual, mas não quis se manifestar sobre o assunto .
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Em alta
Levantamento feito pelo Jornal da Cidade junto aos leitores do site JCNET, na última semana, concluiu que o magistério continua em alta no imaginário da população de Bauru e região. Professor foi a segunda profissão mais lembrada no ranking das mais importantes para a sociedade.
Recebeu 78 votos no total, nos três dias em que a pesquisa esteve no ar - seis a menos que médico, a atividade mais lembrada. Em terceiro lugar ficou lixeiro, com 16 votos, um a mais que policial. A pesquisa não tem valor científico. Em todo caso, é significativo notar que os educadores alcançaram esse reconhecimento junto aos usuários do site. Como disse um leitor, ao justificar a própria resposta: “Sem professor, seria impossível formar profissionais para as outras áreas.”
A enquete ficou no ar entre segunda-feira e quarta-feira da última semana. Os leitores eram convidados a indicar quais profissões seriam mais importantes para a sociedade. Além das atividades mencionadas anteriormente, tiveram votos na pesquisa: cientista social, filósofo, cobrador, pastor, dona de casa, bombeiro, médico, mãe, entre outros.
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Secretária municipal reconhece situação como distante da ideal e critica passado
A secretária municipal de Educação, Maria José Jandreice, a Majô, admite que os salários pagos aos professores da rede pública poderiam ser maiores. “A desvalorização do magistério foi parte de um processo de desmonte do Estado iniciado décadas atrás, dentro da lógica neoliberal. Num determinado momento, os servidores públicos em geral, entre eles os professores, deixaram de receber o devido valor”, pensa.
Ela explica que uma das preocupações da atual administração é tentar garantir renda mais digna aos profissionais do magistério. Por outro lado, embora admita que os salários praticados na rede municipal sejam baixos, Majô afirma que são superiores aos valores pagos na região.
“Nenhuma cidade das redondezas paga salários maiores do que Bauru”, defende Majô. O rendimento inicial de um professor na rede do município é de R$ 750,00. A cada cinco anos, se cumprir determinados requisitos previstos em lei, a pessoa terá condições de incorporar 25% em seus proventos. Hoje, o valor máximo que esse profissional poderá alcançar é de R$ 3.000,00.
Atualmente, há cerca de 1.400 professores na rede municipal de ensino, sendo que metade está na educação infantil. De acordo com a secretaria, 46 docentes do ensino fundamental acumulam jornada (lecionam nas escolas estaduais e da Prefeitura).
Questionada a respeito dessa realidade, Majô respondeu: “Se o local em que a pessoa trabalha não oferece um salário suficiente, ela tem o direito de procurar meios de incrementar sua renda.”