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Entrevista da semana: Guilherme Oda

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 9 min

Uma promessa para o golfe profissional

Sabe aquela fase de transição entre a juventude - com seus sabores e leveza de uma vida toda pela frente - e a fase adulta, cheia de responsabilidades e tomadas de decisões? Se você está passando por ela sabe bem como é, e se já passou, certamente se lembra das dificuldades e das alegrias desses momentos únicos que Guilherme Oda está passando, a não ser por um detalhe: aos 23 anos, ele já sabe bem o que quer. Com o Bauru Golf Club como quintal para muitas brincadeiras na infância, Guilherme cresceu vendo o avó e o pai praticarem o esporte que, hoje, virou sua paixão e profissão. Como jogador amador, ele percorreu o país e o mundo disputando, vencendo e trazendo mais de duzentos troféus para nossa terra. Tanto fez que o amadorismo já não comporta um nome importante no cenário do esporte como o dele e, ano que vem, os planos são de profissionalização. “Quem sabe não estarei em 2016 nos Jogos Olímpicos do Rio. É um sonho, mas vou lutar como sempre fiz”, diz sobre a volta do golfe às Olimpíadas depois de mais de 100 anos fora das competições. Foi no Bauru Golf Club que Guilherme Oda falou ao Jornal da Cidade sobre a emoção de ocupar o primeiro lugar no ranking nacional amador, sonhos, infância, família, disputas e planos para o futuro. Leia a seguir

Jornal da Cidade - Você deve ter passado boa parte da sua infância aqui, no Bauru Golf Club.

Guilherme Oda - Com certeza! Meu avô e pai jogavam, então, desde pequeno eu vivo nesse meio. Vinha para o clube brincar, subia em árvores e me divertia como uma criança normal. Fui aprendendo com o convívio.

JC - Quando deu suas primeiras tacadas?

Guilherme - Como disse, sempre estive aqui no clube e o gosto pelo golfe acabou sendo inconsciente. Quando percebi, já estava apaixonado pelo esporte. Dei minhas primeiras tacadas quando tinha uns 10 anos de idade.

JC - E quando disputou seu primeiro campeonato?

Guilherme - Comecei aqui mesmo no Bauru Golf Club em campeonatos internos com o pessoal da cidade e, em campeonatos juvenis, eu tinha uns 15 anos. Ainda lembro quando ganhei minha primeira medalha. Foi em Campinas e eu fiquei em terceiro lugar.

JC - Recebe incentivo da família?

Guilherme - Sim. Minha família sempre me incentivou com o golfe e me deixou seguir em frente, até porque grande parte dela também é amante do esporte.

JC - Quando você sentiu que essa seria sua profissão?

Guilherme - Eu terminei a faculdade de administração há pouco tempo e pensei: E agora, o que vou fazer? Pensei dessa forma porque não pretendo ser administrador. Fiz a faculdade de administração porque não sabia o que fazer e meus pais me disseram que eu precisava ter um curso superior. Até gosto da área administrativa, mas prefiro o golfe. Esse ano estou apenas treinando e, ano que vem, pretendo me profissionalizar.

JC - Disputou campeonatos no exterior?

Guilherme - Já tive a oportunidade de disputar em países como a Argentina, Equador, Portugal, Estados Unidos da América, México e Uruguai. Aqui no Brasil já disputei na Bahia, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Paraná e por todo o Estado de São Paulo.

JC - Há fatos marcantes?

Guilherme - Sempre tem. Certa vez, em uma disputa nos Estados Unidos, meu ked, que é a pessoa que carrega os tacos, foi muito bacana e me deu até presente no final do campeonato. O que me deixou surpreso foi a alegria dele em trabalhar com um brasileiro, ele ficou até espantado em saber que o Brasil tem jogadores de golfe. Eles têm torcida e o esporte é muito valorizado lá. Aqui perto, na Argentina, também é assim. Eles têm investimentos, o país todo conhece, o nível dos jogadores é bom. Acho que isso acontece porque esses países investem no esporte e isso faz parte da cultura deles.

JC - Você ganhou muitos torneios?

Guilherme - Sim, tenho mais de duzentos troféus em casa.

JC - O amador ficou pequeno e por isso está buscando o profissional?

Guilherme - Na verdade, quero mesmo é ser profissional do golfe e já joguei tudo o que tinha que jogar como amador, então, chegou a hora de me profissionalizar.

JC - Quais os obstáculos para a profissionalização?

Guilherme - Acredito que não vou precisar fazer o teste pedido para a profissionalização por causa do meu currículo como amador. O mais difícil é o patrocínio porque, como amador, eu tenho benefícios como passagens aéreas e hospedagens para torneios nacionais, mas não posso receber prêmios em dinheiro. Já como profissional, não tenho esses benefícios, mas vou poder receber prêmios em dinheiro quando vencer.

JC - O golfe volta aos Jogos Olímpicos, em 2016, depois de mais de 100 anos fora.

Guilherme - É, isso é ótimo porque pode incentivar o esporte, aumentar o número de esportistas e o investimento e, quem sabe, deixar o golfe mais acessível em nosso país.

JC - Você espera estar lá?

Guilherme - Com certeza. É um sonho, mas é uma oportunidade e acredito nisso sim.

JC - Como esportista, quais benefícios acredita que os Jogos Olímpicos trarão para o país?

Guilherme - Vai ser uma boa porque todas as modalidades virão para o Brasil e essa vai ser uma ótima oportunidade para o país acordar e investir em outros esportes e nos esportistas. Vai ser bom sair um pouco do circuito futebol e vôlei, o que acaba deixando os outros esportes esquecidos. Com isso, também temos a oportunidade de melhorar o nível técnico e a popularização esportiva.

JC - Além do alto custo do golfe, o que mais dificulta sua popularização?

Guilherme - Olha, para falar a verdade, aqui no interior o esporte não é tão caro. Nas grandes capitais como São Paulo e Rio de Janeiro, os clubes são fechados, muito requisitados e o número de sócios é limitado, o que dificulta. Aqui no interior é mais fácil, a mensalidade não é tão alta e os tacos podem ser comprados usados para começar a jogar. A divulgação do esporte é pequena, no Brasil. Mas agora isso está melhorando, principalmente com a chegada das Olimpíadas.

JC - Qual é sua rotina de treinamento?

Guilherme - Treino praticamente todos os dias e chego a ficar umas 20 horas semanais no clube.

JC - Sobra tempo para passeios?

Guilherme - Sim, claro. Aos finais de semana, quando não tem torneio, eu sempre descanso e vou para a balada com os amigos. Procuro me distrair quando estou em Bauru. Minhas atividades fora do golfe são academia e barzinhos, coisas de um cara normal.

JC - Sua partida mais emocionante.

Guilherme - Qualquer partida é emocionante quando estou disputando um título ou estou na liderança. Mas essa última agora, em Londrina (PR), senti uma emoção muito grande. Eu estava com uma diferença de duas tacadas e, ao final, acabou ficando uma só tacada de diferença, quer dizer, o jogo estava bastante apertado. Além disso, ranking nacional é sempre uma disputa mais forte porque o nível também é maior.

JC - E a mais importante?

Guilherme - Acredito que foi em Curitiba, em 2006. Foi o primeiro título que consegui no ranking nacional amador. Eu joguei uma volta espetacular e isso me alavancou.

JC - Quais são os seus planos futuros?

Guilherme - O que eu quero mesmo é me profissionalizar e seguir carreira no golfe. Preciso de um bom patrocinador porque, por enquanto, tenho um “paitrocinador”. Quem sabe sair do Brasil, também, porque o país é muito fraco em torneios profissionais. Para você ter uma idéia, o primeiro torneio do ano aconteceu no mês passado, então, aqui não dá para sobreviver somente da prática esportiva do golfe, é preciso outras coisas como dar aulas sobre o esporte, por exemplo.

JC - O golfe não é um esporte financeiramente rentável?

Guilherme - No Brasil, não. O primeiro lugar de um torneio profissional pode ganhar até R$ 20 mil reais. Já no exterior, os valores podem chegar a US$ 1 milhão de dólares. Mas eu acredito que compensa, primeiro pelo prazer de fazer algo que gosto, depois, se conseguir um bom patrocinador, posso disputar torneios na América do Sul, por exemplo, onde os prêmios são maiores.

JC - Hoje, você é o primeiro no ranking nacional amador. O que sente quando pensa nisso?

Guilherme - No começo, quando entrei no ranking, eu pegava as revistas, olhava aqueles caras e pensava: Nossa, será que um dia vou chegar lá, será que vou conseguir disputar com esses caras? E a primeira vez que joguei com um deles, foi uma emoção muito grande, mas vi que tudo é possível se você treinar e se preparar pode chegar longe dentro dos seus objetivos.

JC - E o que você sentiu quando viu o seu nome no topo da lista?

Guilherme - Pensei nos treinos diários embaixo do sol escaldante e confesso que senti uma sensação de alívio porque valeu a pena. É bom saber, também, que meus pais sentem orgulho. Eles sabem o quanto eu gosto do esporte e nunca me obrigaram a nada.

JC - Você me disse que gosta de jogar poker.

Guilherme - É verdade, sim. Essa é uma das coisas que gosto de fazer nas horas vagas e com os amigos. Digo que brinco de jogar poker porque é só uma distração mesmo, assim como Internet ou ouvir música, coisas de moleque (risos).

JC - Ainda se considera um moleque?

Guilherme - Às vezes sim, outras não. Estou no período de transição entre garoto e homem, buscando minha carreira. Em casa, por exemplo, peço para minha mãe fazer muita coisa por mim, nesses momentos me sinto menino. Mas, quando o assunto é lutar por meus objetivos, sou homem sério.

JC - Passa bastante tempo com a família?

Guilherme - Gosto de ter todos juntos para o jantar, conversar com eles e ver TV. Conversamos sobre tudo em casa, tenho abertura para isso.

JC - Você é bastante jovem e já tem os planos traçados. O que diria aos jovens que ainda estão “perdidos” em relação à profissão?

Guilherme - Se você gosta de alguma coisa, corra atrás e não escute as opiniões negativas das pessoas. Ouvi muito que o golfe não dá dinheiro e futuro, mas é o que eu gosto e por isso vou à luta.

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Perfil

Nome: Guilherme Oda

Idade: 23 anos

Local de Nascimento: Bauru

Signo: Câncer

Hobby:Jogar poker

Livro de cabeceira: revistas sobre golfe

Filme preferido: Ação

Estilo musical predileto: Música eletrônica

Time: Corinthians

Para quem dá nota 10: Para meus pais

Para quem dá nota 0: Ao governo

E-mail: guioda@hotmail.com

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