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Flores, cana e fé

Lázaro Carneiro
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Já aposentado, cansado da vida estéril da cidade, desfiz de tudo amealhado até então e comprei uma terrinha de beira de córrego, onde eu pudesse passar o fim dos meus dias desfrutando de paz, coisa que não tive durante a vida toda... Depois de muito esforço, lá estava eu dentro da casinha dos meus sonhos. Só uma coisa me incomodava: estava ilhado por canaviais. Alguns meses de luta e tudo estava como eu queria, já tinha algumas plantinhas, pés de frutas, galinhas correndo em meu pequeno quintal, eu tinha até um galo que cantava nas madrugadas. Minha felicidade era tanta logo pensei em agradecer a Deus.

Como estava próximo o Dia da Padroeira, combinei com minha velha rezarmos um terço para nossa santa de devoção, e assim fizemos. Preparei doces e salgados para servir a todos que aparecessem ali para esse brinde à minha felicidade, convidei os vizinhos e os meus parentes. Queria que fosse uma bela festa, à altura de um caipira feliz. No dia 12 de outubro, logo cedo pus-me a trabalhar para a recepção, armei em minha varanda uma mesa coberta com uma toalha nova limpinha, que dava gosto de ver, e coloquei com muito carinho a imagem da santinha onde, em uma breve reverência, me benzi e ainda beijei os pés da imagem.

Pensei em pôr umas flores pra enfeitar a nossa fé. Saí à caça de flores de São João ou outra qualquer que desse um ar mais alegre à nossa reza. Depois de andar muito, em meio ao mar de cana, voltei pra casa cansado e sem nenhuma flor pra pôr no meu altar.

O autor, Lázaro Carneiro, é colaborador da Tribuna do Leitor e do Opinião

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