Os elementos de fixação usados em nossos veículos que são os parafusos, porcas, arruelas, travas, grampos, adesivos, buchas, presilhas etc., são dimensionados para manter todos os conjuntos, peças e equipamentos fixos em seu devido lugar. Para tal, deverão apresentar uma resistência mecânica e características adequadas para suportar os esforços a que estiverem sujeitos. Elementos rosqueados podem se soltar devido à vibração se não estiverem apertados com o torque especificado pelo fabricante, por exemplo. Buchas plásticas começam a fazer barulho com o tempo se não estiverem perfeitamente encaixadas e presas.
Falamos constantemente sobre o torque do motor, que é uma medida da força do propulsor. Em física, chama-se torque o produto de uma força perpendicular ao eixo de rotação multiplicada pela distância desta ao eixo de rotação. Em um motor instalado em dinamômetro, mede-se o torque através de uma barra apoiada sobre uma balança (modelos mais antigos) ou por um freio que atua sobre o eixo de saída do propulsor, medido a força necessária para freá-lo.
Em um parafuso ocorre o mesmo. Ao usarmos uma chave de aperto aplicamos uma força no cabo da ferramenta e esta gira o parafuso. Ao encostar sua cabeça em um apoio, o giro da rosca é interrompido devido à interferência física. A isto se chama “apertar com a mão”, pois não se aplicou um torque maior de fixação. Se continuarmos aplicando uma força no cabo da ferramenta, este dará um aperto maior, tendendo a esticar o parafuso e aumentando o atrito entre as superfícies de contato, prendendo mais firmemente as peças entre si.
Os fabricantes especificam este torque de aperto em função do material do elemento de fixação (parafuso ou porca) e da própria peça a ser fixada. Se não aplicarmos um torque ou aperto dentro do especificado, a peça poderá se soltar com o tempo por falta de torque ou até se quebrar, por excesso. Para saber o torque realmente aplicado, usa-se uma ferramenta chamada torquímetro. É comum ver-se blocos de motor com um ou mais prisioneiros (aqueles elementos rosqueados que fixam o cabeçote ao bloco) quebrados, porque o mecânico apertou demais. Depois, para retirar o pedaço que ficou preso dentro da rosca vai ter um trabalhão...
Quando um carro sai novinho da fábrica, vem com tudo apertadinho e certinho. Quando começa a manutenção e regulagens preventivas, surgem os problemas. Poucas oficinas usam corretamente o torquímetro e, quando usam, o usam apenas para o cabeçote do motor. Dificilmente se vê uma loja ou oficina usar o torquímetro para apertar as porcas ou parafusos de roda, por exemplo. Normalmente apertam apenas com a força dos braços, “até ficar firme”. Claro que isto depende do porte físico de quem apertou, portanto a roda pode ficar solta com o tempo e causar um acidente, ou ficar tão presa que um motorista médio não consiga soltá-la sozinho em uma estrada, ao trocar um pneu furado.
Um torquímetro deve ser usado para apertar os parafusos e porcas sujeitos a vibração, para evitar que se soltem sozinhos. Assim, todas as fixações do motor como coxins e suportes, além dos componentes agregados ao motor como caixa seca, embreagem e câmbio, precisam estar firmemente unidos e travados. Da mesma forma ocorre com as peças da suspensão, pois estas não podem se soltar por segurança. Alguns mecânicos fazem consertos ou substituições de peças e depois não apertam direito, deixando folgas que podem danificar os componentes ou mesmo as peças se soltando. O correto é sempre apertar como manda a fábrica, deixar o carro rodar um tempo para assentar tudo e depois dar um reaperto geral. As próprias montadoras agem assim, pois apertam todas as peças novas com o torque correto na linha de montagem e algumas mais críticas devem ser checadas na revisão de entrega na concessionária. Na primeira revisão tudo é (ou deveria ser) checado e conferido novamente.
Já vi automóveis e motos que foram para conserto e voltaram aparentemente em ordem, mas em pouco tempo apresentaram barulhos e vibrações típicas de coisa solta. Precisaram ser completamente reapertados. Com moto isto acontece frequentemente em virtude da vibração do motor e das características próprias do veículo. Já aconteceu comigo em viagem de moto, ao se soltar a alavanca de troca de marchas por falta de aperto do eixo do pedal. Poderia ter ficado sem acionamento do câmbio no meio da estrada, mas deu para consertar com as ferramentas da própria moto. Poderia não ter dado, causado um transtorno maior que deveria ter sido evitado.
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* Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e é diretor geral da Tryor Veículos Especiais Ltda.
Seu site é www.marcoscamerini.com.br.