Tribuna do Leitor

Reminiscências de uma professora de soturna, hoje Arealva


| Tempo de leitura: 3 min

Foi nas areias alvas do lindo e grandioso rio Tietê, que margeia e banha suas terras, que veio a inspiração do nome Arealva. Quando lá cheguei, em 1948, para assumir uma classe no “Grupo Escolar Rural João Pereira de Souza Leão”, ainda era um distrito a bucólica e hospitaleira Soturna. Fui muito bem recebida pelo saudoso diretor professor Nelson Teixeira Mendes, sua esposa Telma e a filhinha Nelma, que era uma linda criança de olhos azuis.

Ele mesmo levou-me para a escola. Entramos na sala de aula. Os alunos todos uniformizados e ansiosos para conhecer a nova professora. Inexperiente, trêmula e insegura recebi o livro de chamada. Com lágrimas rolando pela face fui dizendo: não sei fazer a chamada professor! Que fiasco! Afinal eu nunca havia sido substituta, só tinha a teoria do Curso Normal... Fiquei só com meus alunos e logo me recuperei. Por sorte era uma quarta-feira, dia de dar aula de religião. Recém-formada em um colégio interno de freiras, era o que mais eu sabia fazer.

Dei uma aula sobre os anjos, com desenhos, cantos e danças. Conquistei “de cara” meus alunos! Terminada a aula, fui para a pensão onde oito colegas mais antigas me receberam com muito carinho. Primeiro banho: a dona da pensão encheu um latão de água, pendurou num aposento de madeira e disse:

- É só puxar a cordinha que a água sai...

Mais um fiasco! A água acabou e eu fiquei ensaboada... Aprendi a ser mais rápida. Recebi das colegas o apelido de inocência. Passados alguns dias, eu já estava mais adaptada, gostava das colegas e até mesmo da comida. Só não conseguia mais comer o bendito chuchu. Era chuchu abafadinho, chuchu com carne moída, chuchu em salada, chuchu na sopa e, desconfio, que até a sobremesa era de chuchu!

Nessas alturas eu já não era mais a inocência. Em altas horas da noite, eu e a colega Dadá, pé ante pé, fomos até o quintal e, com uma faca bem afiada que pegamos na cozinha, plaf, plaf, plaf, cortamos o chuchuzeiro. Perdão pela malandragem, coisas da juventude... Mas conseguimos ficar sem comer chuchu por algumas semanas, pois a dona plantou outro pé...

Outro caso: gostávamos muito da salada de alface que era plantada no quintal e podíamos comer à vontade, até que numa tarde vimos o dono da pensão lavando os pés na mesma bacia em que eram lavadas as verduras...

Desta vez raciocinamos melhor: compramos uma bacia nova e colocamos na cozinha com um cartão escrito: “Só para lavar verduras”.

Num belo dia, resolvemos mudar para o hotel do senhor João Frais, onde conheci o Decio Croce, mais tarde meu saudoso marido. Ele, em companhia de outros seresteiros de Bauru (Hermógenes Tâmbara etc), fazia serenata para nos alegrar, cantando com sua voz de tenor lindas canções de amor: Malandrinha, Chão de Estrelas, Lua... Estávamos apaixonados. Ele muito me ajudou a seguir em frente, mesmo longe da família.

Hoje, aos 82 anos, gostaria de dizer algumas palavras aos atuais e futuros professores: não abandonem sua vocação por causa da violência, má remuneração ou outro motivo. Preparem-se, lutem, trabalhem com amor, criatividade e religiosidade. Quem sabe um dia teremos uma escola que todos almejam e assim ver no magistério, uma profissão suave e gratificante.

Florinda Cesta Croce - :professora aposentada da Rede Oficial Estadual de Ensino

Comentários

Comentários