Tegucigalpa - No último dia de prazo dado pelo presidente deposto Manuel Zelaya para um acordo que ponha fim aos mais de cem dias de crise política em Honduras, o governo interino de Roberto Micheletti voltou ontem a trancar as negociações, interrompendo por horas o diálogo que já dura mais de uma semana.
Desde anteontem, os dois times discutem o único ponto sobre o qual não há consenso: a restituição de Zelaya. Ontem pela manhã, os trabalhos foram suspensos minutos depois do início da reunião. Segundo uma fonte que acompanha as negociações, os negociadores de Micheletti informaram à outra parte que o governo golpista não aceitava uma volta imediata do presidente deposto.
Os negociadores de Zelaya foram então à embaixada brasileira para ouvi-lo. O diálogo foi reiniciado apenas à tarde.
Enquanto isso, Micheletti aproveitava politicamente a classificação da seleção hondurenha para a Copa do Mundo de 2010. Com o país em festa, o presidente interino recebeu os jogadores na Casa Presidencial em um evento transmitido ao vivo pela TV. Ele fez um pronunciamento que misturava política e esporte.
“Estamos vivendo um momento muito significativo de nossa história (...) Muitos dos que estão aqui não eram nascidos quando nossa Constituição vigente nasceu, em 1982, no ano em que participamos pela primeira vez no Mundial. Coincidentemente, 27 anos depois, essa mesma Constituição reafirmou sua vigência, quando vamos a um segundo campeonato mundial”, disse.
O governo interino alega que Zelaya desrespeitou a Constituição do país ao convocar uma consulta popular para saber se os hondurenhos queriam ou não uma Constituinte.
Três jogadores não participaram da cerimônia com o presidente interino. Emilio Izaguirre e Donis Escober foram até a Casa Presidencial, mas não quiseram entrar no salão onde se realizou a comemoração. Perguntados se não queriam ser recebidos por Micheletti, responderam que estavam cansados e “não queriam se envolver com política”. Outro jogador, Julio Cesar de Leon, foi direto para um hotel. Lá, declarou apenas que “na vida, quem comete erros tem que pagar”.
Na embaixada
Depois de se reunir com os delegados ontem de manhã na embaixada brasileira, Zelaya afirmou a jornalistas, enquanto cruzava uma sala, que é “besteira pura” a hipótese de que peça asilo político na Espanha e de que uma terceira pessoa assuma a Presidência, como foi veiculado na imprensa local.
O presidente deposto voltou a dizer que só aceita um acordo que passe pela sua restituição e afirmou que não dará novas entrevistas até que as negociações estejam encerradas.
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