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Estado mínimo

Antônio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

Certamente, não será tarefa fácil encontrar explicação razoável para o total abandono dos investimentos na infra-estrutura dos transportes brasileiros na década 1994/2004. Talvez as causas não sejam muito diferentes daquelas que permitiram o apagão energético de 2001, que derrubou 3% do crescimento do PIB de um ano para o outro. É quase tanto quanto o estrago feito com a importação da crise financeira global a partir do último trimestre de 2008, felizmente contido no semestre seguinte. Naqueles dez anos, a economia manteve uma das menores taxas de crescimento do PIB de que se tem registro na história do desenvolvimento brasileiro.

Talvez uma pista seja que o período coincidiu com a crença nas virtudes do “estado mínimo” e da “desregulação dos mercados”, mas isso é pouco para justificar a esterilização dos investimentos na infra-estrutura energética, rodo-ferroviária, portuária etc... O investimento público desapareceu e o de origem privada só voltou recentemente. Na realidade o que aconteceu naquele período é que a prioridade ao desenvolvimento econômico foi abandonada. O prejuízo se mostrou a partir do momento em que a economia voltou a crescer e a demandar mais serviços.

Uma reportagem dos jornalistas Mariana Aragão e Renée Pereira, no Estadão (SP) do último domingo, chama a atenção para a ameaça de “apagão logístico” decorrente da dramática redução dos investimentos na infra-estrutura de transportes: um gráfico sugestivo mostra que em 1975 os investimentos em transporte correspondiam a 2% do PIB. Os percentuais se reduziram lentamente, ano a ano, até o nível mais baixo, de 0.2% do PIB em 1994 e se mantiveram até 2004 entre 0.3% e 0.4% do PIB, na média anual. Só depois de 2005 voltaram a crescer e estão se aproximaram de 0.8% do PIB, em 2008.

A recuperação do desenvolvimento global vai exigir crescentes investimentos em novas tecnologias para acompanhar as profundas mudanças nos processos da produção industrial, uma revolução que está em pleno andamento devido às inovações no campo da energia. Nos Estados Unidos e na Eurolândia (os destaques vão para Alemanha, Dinamarca e Noruega) são enormes os recursos destinados a pesquisas e desenvolvimento para aumentar a oferta de energia de fontes renováveis.

Ainda que timidamente, o Brasil ocupa alguns espaços nessa revolução. Saímos na frente e podemos avançar muito mais no desenvolvimento de processos e produtos de energia renovável: temos o etanol da cana e uma ampla possibilidade de utilização da biomassa a partir de culturas em regiões diferenciadas do país, sem prejuízo da produção de alimentos.

Ao lado dessas oportunidades se coloca o desafio crucial da recuperação da nossa infra-estrutura, sem o que não poderemos tirar proveito nem dos resultados das inovações e nem dos ganhos de produtividade que alcançamos nos setores de carnes e grãos.

No caso dos transportes rodoferroviários e das instalações portuárias o desafio é de curtísimo prazo. A previsão para a safra agrícola 2009/2010 é de crescimento (só de soja a expectativa é de um aumento de oferta da ordem de 6 milhões de toneladas) e já começará a demandar um grande volume de transporte no próximo verão. Cálculos de especialistas indicam a necessidade de reparos e pavimentação de 4 mil quilômetros de rodovias para um escoamento razoável em 2010. É tarefa, na realidade, para um super PAC.

O autor, Antônio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP

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