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Entrevista da semana: Luiz Carlos Quatrina: Um artista na arte de viver com alegria

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 9 min

“Agradeço a Deus e à minha família por tudo”. Para muitas das perguntas feitas pelo Jornal da Cidade, essa foi a resposta de Luiz Carlos Quatrina, um advogado e ex-bancário cujas mãos se dedicam, hoje, a uma doce tarefa: a fabricação de sorvetes finos e caseiros. Vindo de uma família humilde da cidade de Pirajuí, Quatrina, como é conhecido, tem uma trajetória longa e cheia de histórias para contar. Sem medo do trabalho, batalha desde os 9 anos. Já foi faxineiro, atendente, vendedor, bancário, locutor de rádio, palhaço, cantor. Já sorriu, chorou, sonhou, lutou e venceu. “Meus pais me ensinaram que Deus nos dá portas, mas temos que abri-las”. É o que diz sobre tantas dificuldades enfrentadas e vitórias.

Luiz Carlos Quatrina mudou-se para Bauru com o intuito de realizar um sonho de menino: ser advogado. Enfrentou dificuldades, se formou, mas desistiu da profissão logo no primeiro dia de trabalho por não combinar com seu estilo de vida. Hoje ele se sente feliz com o que conseguiu, com a arte de fazer sorvetes, e com a pintura e a poesia como hobby.

Leia os principais trechos da entrevista que ele concedeu ao Jornal da Cidade na qual também fala sobre família, fé, sonhos e muitas histórias de vida.

Jornal da Cidade – Você também era falante e alegre quando criança?

Luiz Carlos Quatrina – Era uma criança batalhadora. Comecei a trabalhar com 9 anos na Caixa Econômica Estadual fazendo limpeza, atendendo balcão, entre outros trabalhos. Fiquei lá dos 9 aos 14 anos. Nesse meio tempo uma professora da escola disse que estavam precisando de um aluno para ler um texto comemorativo em uma rádio de Pirajuí, onde nasci e morei até vir para Bauru. Ninguém se propôs a fazer, então eu me ofereci. Quando saí da cabine de gravação, o gerente quis falar comigo e, para minha surpresa, ele disse que havia gostado da minha voz e me convidou para ser locutor daquela rádio. Aceitei no ato e trabalhei lá durante cinco anos. Fui um adolescente diferente de muitos porque era bastante comunicativo e pouco tímido.

JC – Qual era seu sonho de menino?

Quatrina – Sonhava em ser advogado. Foi difícil, uma marra miserável, mas consegui.

JC – O que dificultou o sonho?

Quatrina – Prestei vestibular na Instituição Toledo de Ensino (ITE), passei e precisava vir para Bauru. Nessa época, isso em 1971, eu já era caixa executivo no Banco Comercial do Estado de São Paulo e participava do Rotary Club. Os rotarianos ficaram preocupados comigo e um deles tinha forte influência com a diretoria do banco e conseguiu uma vaga para mim em Bauru. Cheguei aqui e não tinha dinheiro para pagar hotel ou pensão. Foi quando as dificuldades passaram a ser maiores. Conversei com o gerente e pedi que me deixasse dormir no meu local de trabalho. Ele entendeu minha situação depois de me achar maluco (risos). Eu acordava às 4h da manhã para buscar água de uma mina próxima ao banco para os funcionários e com isso ganhava um dinheirinho. Eu fiz amizade com as meninas do restaurante onde comia e sempre pedia o prato mais barato, porém, para me sustentar, elas colocavam um bife bem grande por baixo da comida. Além disso, ia para a faculdade a pé vendia as apostilas que meus colegas de classe montavam para ganhar uma. O que me ajudou mesmo foi minha vontade de cantar. A faculdade precisa de um coral, me candidatei e com a entrada no coral eu ganhei uma bolsa de estudos.

JC – Você sempre gostou de cantar?

Quatrina – Desde criança. Toda semana eu ganhava prêmios em rádios como jogo de xícaras e brinquedos, por exemplo.

JC – Você chegou a advogar?

Quatrina – Essa é uma história longa. Como disse, esse sempre foi meu sonho. Fiz a faculdade, consegui a aprovação da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e arrumei um belo emprego na Ford como advogado de busca e apreensão de veículos. Minha primeira ação foi também a última, nem dormi naquela noite. Sempre fui muito sentimental e chegando à residência do devedor, vi que ele era um senhor com as mãos todas calejadas, olhos cheios de lágrimas e com muitos problemas financeiros e familiares. Não sabia se chorava ou se lhe dava dinheiro quando ele me disse: “Meu carro está aqui. Pode levar porque não tenho condições de pagar nesse momento”. Disse ao oficial que tínhamos que levar o carro para a Ford, mas chegando em casa não jantei e nem consegui dormir direito. Até sonhei com aquele coitado. No outro dia fui ao escritório e pedi demissão mesmo sendo um emprego muito rentável. Prefiro morrer pobre a trabalhar assim.

JC – E como montou a sorveteria?

Quatrina – Montamos a floricultura da família em 1976 e como eu já estava com uma certa idade, meu irmão deu a idéia de abrir uma sorveteria. Nunca fiz cursos para fabricar sorvetes, mas quando a necessidade chega, você aprende. O bom foi que descobri um outro talento depois que passei a vender sorvetes.

JC – E a pintura?

Quatrina – Certa vez um cara humilde chegou aqui na sorveteria e me disse: “Vamos fazer um negócio? Tenho azulejos em casa. Eu os dou para você e em troca recebo sorvetes”. Aceitei. Minha mãe me disse: “Filho, o que vai fazer com tantos azulejos? Eu, como sempre, disse que Deus me indicaria um caminho. Até que um dia tive a idéia de pintá-los, mesmo sem saber. Sentei-me, pedi inspiração divina, pintei e gostei do que fiz. Meus pais sempre me ensinaram que, com fé, podemos tudo.

JC – Você parece ser muito preocupado com os outros....

Quatrina – Eu participava de concursos de música quando criança e, uma vez, ganhei um violão ficando em primeiro lugar. Porém, o sonho do menino que ficou em segundo lugar era ter um violão. Adivinha? Dei meu prêmio a ele. Também ganhei um concurso de poesia cujo prêmio era mais um violão. Esse também ficou com o segundo colocado. Para a minha felicidade basta que as pessoas ao me redor estejam bem.

JC – Você coloca algum ingrediente especial em seus sorvetes caseiros?

Quatrina – Sim! Carinho, vontade e bastante amor. Eu faço meus sorvetes pensando em agradar o cliente. O que mais gosto é quando levo o sorvete até a mesa e vejo os olhos das pessoas brilharem quando olham para ele. Acredito que você deve fazer sempre o que gosta e com amor.

JC – Qual é sua relação com os clientes?

Quatrina – Adoro lidar com o público e tenho uma boa história sobre isso. Meus pais sempre me ensinaram a tratar todas as pessoas bem, sem qualquer tipo de distinção. Sempre vinha um senhor comprar sorvete com a família, eu conversava muito com ele e ficamos amigos. Mas nunca soube quem ele era. Compramos um carro zero e deu um probleminha. Com isso tive que ir até a GM. Chegando lá, vi que o chefão era aquele senhor humilde que sempre comprava sorvetes comigo. E ele ainda me deu uma lição. Perguntei se ele era “o bom do pedaço” e ele me disse: “Quatrina, não sou o bom, sou o chefe, Deus é que é bom por ter me permitido esse cargo”. A humildade é a presença de Deus nas pessoas.

JC – Você se considera um bauruense?

Quatrina – Claro que sim! Apesar de ter nascido em Pirajuí, foi aqui que recebi muito carinho, meu pai foi até homenageado tendo seu nome perpetuado em uma rua.

JC – Você é apaixonado por poesia?

Quatrina – Demais. Eu escrevo desde pequeno e vejo a poesia em muitas coisas da vida. Tinha um caderno cheio de criações minhas, mas emprestei para uma amiga que nunca me devolveu.

JC – Você fala muito em Deus e na família. O que significam para você?

Quatrina – Minha família é tudo para mim. É minha base. Se eles estiverem bem, eu estou ótimo. Já Deus é o ser maior, é maravilhoso. Sem Ele não somos nada.

JC – Você é religioso?

Quatrina – Sim. Sou católico, não vou muito à Igreja, mas faço minhas orações diariamente, até mesmo quando estou montando taças de sorvete.

JC – Você já foi conselheiro de casais?

Quatrina – (Risos) Sim. Eu participava de encontro de casais. Nós sabíamos sobre os casais que estavam em atrito, então eu conversava com a mulher, dizia que ela precisava fazer a comida que o marido gosta, se arrumar e dar atenção para ele. Já aos maridos, aconselhava que eles precisavam ser mais carinhosos, fazer elogios, essas coisas que as mulheres gostam e que unem o casal. Muitas vezes os conselhos funcionavam.

JC – Você teve vontade de ter filhos?

Quatrina – Tive vontade de me casar e ter filhos, sim. Me apaixonei por uma japonesa quando morava em Pirajuí, mas não deu certo. Estávamos namorando quando ela foi embora para São Paulo e eu não tinha condições nem de ligar para ela. Terminamos e resolvi cuidar dos meus irmãos e sobrinhos.

JC – Hoje, qual é o seu sonho?

Quatrina – Quero escrever minha biografia.

JC – Qual será a passagem de maior destaque nela?

Quatrina – Quero contar tudo o que passei nessa vida com a intenção de ser um exemplo para o próximo. Muitas vezes as pessoas não têm fé e precisamos ter. Meus pais também me ensinaram que Deus nos dá portas, mas temos que abri-las. Quando criança, eu ganhava groselha do dono de um bar amigo da família, percorria a vizinhança pedindo gelo, já que em casa não havia geladeira, e ficava na porta de um circo vendendo para a garotada. Depois ia no campo de futebol e, ao invés de ver o jogo, eu e meu irmão vendíamos “coisas” na arquibancada. Sempre batalhamos. Sem contar as histórias engraçadas como a vez em que fui palhaço de uma festa infantil, e quando ganhei uma corrida de bicicleta com o veículo nas costas, em Pirajuí. Isso aconteceu porque o pneu furou e o juiz da prova me disse que, se isso acontecesse, eu poderia correr com ela nas costas. Como fazia atletismo, eu tinha muita força e disposição física.

JC – Ficou algum desejo sem realizar?

Quatrina – Graças a Deus e à minha família, não. Tudo o que quis, batalhei e consegui.

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Perfil

• Nome: Luiz Carlos Quatrina

• Idade: 63 anos

• Local de Nascimento: Pirajuí

• Signo: Aquário

• Hobby: Fazer poesias

• Filme preferido: Românticos

• Estilo musical predileto: Música clássica e sertaneja

• Time: Corinthians

• Para quem dá nota 10: Para minha família

• Para quem dá nota 0: À imoralidade, corrupção e violência

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