Política

Transposição do rio São Francisco abre campanha eleitoral presidencial

Aurélio Alonso*
| Tempo de leitura: 3 min

A “vitrine” do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a transposição do rio São Francisco, antecipou a campanha eleitoral à presidência da República de 2010 na última semana. Numa visita de três dias ao sertão de Pernambuco e Bahia, Lula levou na sua comitiva a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, e o deputado federal Ciro Gomes (PSB), dois dos nomes cogitados para disputar a sucessão ao Palácio do Planalto. A obra é defendida por grande parte dos sertanejos como a solução para melhorar as condições de vida no Nordeste Setentrional, mas a obra milionária continua envolta em polêmica. O investimento está estimado em R$ 4,5 bilhões. Nessa primeira etapa estão disponibilizados R$ 1,5 bilhão, mas o custo total em 10 anos bate os R$ 20 bilhões.

O maior crítico da obra, o bispo dom Luiz Flávio Cappio da Diocese de Barra (BA), cidade a 820 quilômetros de Salvador, fez, em 2007, greve de fome de 23 dias contra a obra. Na terça-feira, ele se ausentou da cidade quando a comitiva de Lula esteve no local visitando obra de revitalização, ainda um projeto-piloto coordenado pelo Exército.

Dom Luiz diz que a transposição beneficia os latifundiários e há outras soluções para o semi-áridocom custo mais em conta ao governo.

O governo brasileiro batizou a transposição de “Projeto de Integração do Rio São Francisco com Bacias Hidrográficas do Nordeste Setentrional”, obra sob responsabilidade do Ministério da Integração Nacional (MI). A previsão é construir dois canais que totalizam 713 quilômetros de extensão, bombeando a água do rio São Francisco para as regiões que têm carência de água.

A reportagem da Associação Paulista de Jornais (APJ) percorreu durante dois dias o Eixo Leste (lote 11), onde as obras estão mais adiantadas. Lula visitou a região em clima de campanha e justificou ter viajado ao Polígono da Seca para “fiscalizar” as obras. A estratégia do governo é divulgar o empreendimento e mostrar “a coragem política” de investir numa região esquecida.

O impacto social é grande em municípios do agreste pernambucano. Há nítida melhora em cidades como Salgueiro, Floresta, Cabrobó e Custódia, mas também dúvidas se as obras continuarão futuramente numa eventual mudança de governo. Esse temor é manifestado por gente simples, acostumada a outros grandes projetos abandonados pelos governos passados.

“Será que vão terminar a obra?”, questiona na maior simplicidade o agricultor Antonio Brasiliano Siqueira, 64 anos, conduzindo algumas vacas magras perto de Custódia, onde as obras estão num ritmo forte. Ele se diz plenamente a favor do empreendimento.

A transposição do rio São Francisco já passou por quatro projetos. Segundo um oficial do Exército, o atual é o mais estudado tecnicamente e cientificamente. A obra foi pensada em 1847 no governo de D.Pedro II, mas nunca saiu da prancheta.

O Eixo Norte começa em Cabrobó, em Pernambuco, passa, por 21 municípios e vai até São José de Piranhas, no mesmo Estado.

O Eixo Leste passa por cinco municípios e tem previsão de terminar em dezembro do ano que vem e têm seis estações de bombeamento de água do São Francisco para o canal. A água é desviada para os 287 km de extensão num canal de 3,42 metros de profundidade e de 12 metros de largura. O canal é revestido com cimento e material plástico. A explicação para a impermeabilização é evitar evaporação da água devido ao clima quente da região. A água começa a ser captada em Cabrobó. A previsão é até 2010 terminar um trecho de 287 km. O Eixo Norte tem 426 quilômetro de extensão, com previsão de final em 2012, se não sofrer atraso como é comum em obras do governo. Esse trecho deve vencer o desnível com três estações de bombeamento para atender a quatro Estados.

Para fazer os canais é necessário dinamitar enormes maciços de pedra. O movimento de máquina pesada e trabalhadores é intenso principalmente em Custódia, Salgueiro e Cabrobó, todas no agreste de Pernambuco com temperaturas de 38 graus.

A um ano e meio do pleito presidencial, a transposição virou cartada política do governo numa região considerada reduto eleitoral forte de Lula.

*O repórter Aurélio Alonso viajou pela Associação Paulista de Jornais (APJ) a convite da Presidência da República

Comentários

Comentários