Debaixo do sol forte do agreste nordestino em Barras, na Bahia, (820 quilômetros de Salvador), centenas de pessoas esperavam a chegada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na úlima terça-feira. “Lula você é nosso pai”, gritava uma senhora, ao lado de bandeiras vermelhas do PT e uma do Movimento do Trabalhadores Sem Terra (MST). Também havia várias faixas de saudação ao governador baiano, Jacques Wagner (PT).
Os moradores são favoráveis às obras, embora há quem concorde que o rio precisa de revitalização, principalmente porque em Barra reside o bispo Luiz Flávio Cappio, crítico da transposição.
Em Xique-Xique (BA), vários moradores defendem a obra, mas não criticam o bispo da cidade vizinha. As duas cidades dividem as agruras da seca nordestina e são separadas pelo rio. Para chegar a Barra é necessário passar por uma balsa. “Ele (bispo) não é contra (a obra), apenas defende a revitalização e recuperação do rio que realmente necessita”, diz em tom diplomático Felisberto José de Santana
Os moradores apostam nas obras da transposição, porque acreditam que se houver os assentamentos, como prometido, eles acreditam que as perpectivas são boas. Na região há o Baixio do Irecê que tem um canal de água que já traz benefícios. “É o segundo da América Latina e acho até superior à transposição”, afirma João Carlos.
A cidade de Xique-Xique tem uma renda per capita muito baixa (R$ 71,09) e um Índice de Desenvolvimento Humano de coeficiente de 0,58. “Somos pobres, mas ainda Deus nos proverá”, responde Santana. A média de chuva na região de 450 a 600 milímitros por ano.
Com mais oferta de água, caso sejam construídos os canais, os moradores acreditam que será possível melhorar a produção de cebola, tomate, melancia e mandioca. A revitalização do rio também é importante para a piscicultura. “Aqui tem o melhor Surubim, um peixe típico do São Francisco, existente principalmente às margens da barragem de Sobradinho”, diz.
Em Barras, o clima era mais festivo na terça-feira, porque havia até um palanque preparado para Lula. O trabalhador rural Gilmar Félix de Souza, 42 anos, ostentava dois adesivos no peito, mas nem sabia quem distribuiu.
No local há o projeto piloto coordenado pelo Exército para coordenar o viveiro de mudas. O tenente Jonas de Almeida explica que foi montada uma estufa para preparar as mudas que serão posteriormente plantadas ao longo da margem do rio. O militar é biólogo e foi trazido pelo Exército para ajudar no projeto que prevê ainda a construção de defletores (sacos com solo cimento) a serem colocados no rio para conter os sedimentos. Eles serão instalados perpendicularmente e no futuro vão conter também a matéria orgânica. Atualmente, as margens têm muita erosão, areia e falta mata ciliar.
O projeto também vai terceirizar para cooperativas compostas de trabalhadores da região para produzir mudas de espécies da região e adquiriu insumos. “É um projeto social para gerar renda à população”, explica o militar.