Rio - Dois policiais militares morreram ontem dentro de um helicóptero que se incendiou após ser atingido por tiros disparados do morro de São João (Engenho Novo, zona norte). Os outros três policiais que estavam a bordo conseguiram escapar, mas sofreram queimaduras. Um deles foi baleado.
Da frota da Polícia Militar (PM), o helicóptero sobrevoava os vizinhos morros de São João e dos Macacos (Vila Isabel), onde de madrugada houve intensa troca de tiros entre quadrilhas rivais de traficantes.
Segundo testemunhas, o helicóptero foi atingido na traseira, possivelmente na hélice, o que deu início ao fogo. Baleado, com pouco controle sobre o aparelho, o piloto ainda conseguiu fazer um pouso emergencial em um campo de futebol, na Vila Olímpica do Sampaio junto ao túnel Noel Rosa, perto das favelas.
No solo, o helicóptero foi destruído pelas chamas. Não se sabe a razão de os dois PMs não terem conseguido escapar como os colegas. É possível que tenham sido baleados ainda quando o helicóptero voava. Até as 15h de ontem, a PM não divulgara nem os nomes nem as patentes das vítimas.
Pelo menos mais três homens morreram durante os confrontos da madrugada. Os corpos foram achados de manhã em um carro abandonado em acesso ao São João. Também não foram identificados
Moradores do Macacos contaram que por volta de 1h traficantes do São João tentaram invadir a favela. Foram rechaçados e voltaram para o morro, de onde iniciaram um confronto com tiros de fuzil à distância.
Policiais militares chegaram ao pé do Macacos por volta das 3h, mas não o invadiram sob a alegação de que não tinham ordem para a ocupação. Na tentativa de escapar dos tiros e estilhaços de granadas que explodiam, muitos moradores desceram a favela e seguiram até a 25.ª Delegacia de Polícia, para pedir ajuda. Inconformados, eles interditaram a rua Visconde de Santa Isabel, onde fica a delegacia, e incendiaram pneus em protesto.
Os morros de São João e dos Macacos foram invadidos pelos PMs às 7h. Participaram da ação policiais de três batalhões de bairros, mais o Batalhão de Operações Especiais (Bope) e o Batalhão de Choque.
Os tiros continuaram até as 10h. Quando pararam, começaram os incêndios. Traficantes do São João comandaram, segundo a PM, grupos que queimaram pelo menos cinco ônibus e um carro em bairros da área.
O motorista Fábio Nascimento dos Santos, 29 anos, disse que foi ameaçado de morte pelos incendiários, que portavam galões de gasolina e álcool.
À tarde, o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, convocou todos os comandantes de batalhão para uma reunião. Foi anunciado que a corporação estava em prontidão.
Dominado pela facção criminosa Amigo dos Amigos (ADA), o morro de São Carlos (Estácio, bairro perto do centro) foi cercado pela PM, a fim de evitar que seus traficantes sigam para o Macacos, a fim de auxiliar os colegas ameaçados de invasão.
O Macacos é o principal reduto da ADA na zona norte. Sua localização, em um bairro próximo ao centro e com uma população expressiva de classe média, como é Vila Isabel, o faz ser cobiçado pelas facções inimigas, especialmente o Comando Vermelho (CV), que domina a maior parte das favelas dos vizinhos bairros da Tijuca e da região da Leopoldina, como o São João.