Mereceu minha atenção o texto de autoria do coronel da reserva Renato Azevedo, intitulado “No Dia da Mentira, Brasília mudou o trânsito”, na Folha de S. Paulo de domingo passado. Destaco o seguinte trecho:
“O dia 1.º de abril tem um significado particularmente importante para Brasília. Não porque seja considerado Dia da Mentira, mas porque foi em 1.º de abril de 1997 que os pedestres da Capital do País saíram de uma condição de cidadãos de segunda classe para ingressarem num novo mundo. O conhecido mundo civilizado, onde se respeita o ser humano nas travessias das faixas de pedestres. É assim em Estocolmo, em Madri, em Tóquio”.
Com efeito: quem chega à Capital Federal e circula pelo Centro mesmo nas horas do rush se depara com algo surpreendente: o absoluto respeito pelo pedestre, de parte dos motoristas e motociclistas. Nas faixas reservadas aos transeuntes, basta que adentrem o espaço para serem tratados como reis. Os veículos param e aguardam passagem dos transeuntes, mesmo após o tempo regulamentar. É como se estivéssemos em Tóquio, por exemplo, conforme constatei em viagem ao país do sol nascente.
É de dar inveja, se compararmos a conduta dos motoristas brasileiros - bauruenses em particular - quando estes têm pela frente um transeunte distraído a atrasá-los por um décimo de segundo na travessia do semáforo.
O coronel Azevedo comandou as tratativas de implantação do modelo brasiliense de respeito total ao Código Nacional de Trânsito, no quesito faixa de pedestres.
Diz o coronel: “A engenharia de trânsito sinalizou as faixas, colocou iluminação pública de ótima qualidade sobre elas, treinamos motoristas e pedestres, envolvemos a sociedade civil organizada, a Universidade de Brasília, as escolas, os frotistas, os motociclistas e a mídia. Fiscalizamos e multamos os motoristas que desrespeitavam a preferência dos pedestres. Muitos motoristas nem sequer sabiam que essa lei existia, pois nas autoescolas de então nada se falava sobre isso”.
Desde 1997, a norma permanece em Brasília absorvida pelos condutores de boa vontade e usufruída gostosamente pelos pedestres. Nem parece realidade de cidade brasileira...
Por que não tentar entre nós uma iniciativa semelhante? Creio que, nesta fase de adaptação dos brasileiros às coisas boas oriundas do poder público, a tentativa pode ser bem-sucedida. Haja vista a proibição de fumar em lugares públicos.
Aproveitamos a oportunidade destas breves observações sobre o tema para mencionar atentados diuturnos à segurança do pedestre, registrados nas ruas centrais de Bauru. Alguns exemplos: a travessia da avenida Rodrigues Alves, da rua Primeiro de Agosto e transversais. Se o pedestre espera o sinal vermelho aos carros na avenida com a Rio Branco e com a Virgílio Malta, para usar a faixa reservada a ele, vê-se obrigado a esperar a passagem dos veículos que sobem ou descem nos cruzamentos. Não há colher de chá. Os motoristas e motociclistas simplesmente sinalizam e avançam sobre a faixa e recomeça a espera por parte do pedestre. Ai de quem se atreve a adiantar-se aos veículos! Será alvo das buzinas e até mesmo de xingamentos por ousar utilizar-se de privilégio garantido no Código Nacional de Trânsito.
Vai aqui uma sugestão à Emdurb: Por que não imitar o 1.º de abril dos brasilienses? Disciplinar e educar nossos motoristas e pedestres pode significar a alforria destes últimos, garantindo a eles tranqüilidade e maior segurança nas travessias.
Nilson Costa - jornalista e ex-prefeito