Ser

A voz feminina no Afeganistão

Por Da Redação | Com informações de Rosa Arrais Assessoria de Comunicação)
| Tempo de leitura: 5 min

A vida e a luta das mulheres afegãs para mudar sua condição em uma sociedade patriarcal repressiva é o tema do audiolivro “Mulheres Afegãs”, de Elaheh Rostami-Povey (Editora Nossa Cultura). A obra apresenta a trajetória das mulheres que foram obrigadas a se esconder sob as burcas do Talebã e hoje enfrentam os dilemas do país sob intervenção norte-americano.

O livro dá voz às mulheres afegãs, mostrando que elas querem que todas as pessoas desejosas da igualdade entre os gêneros, paz, segurança e desenvolvimento no Afeganistão saibam que elas são capazes de lutar contra a dominação masculina, à sua maneira, e de acordo com sua cultura.

Para as mulheres afegãs, o relato ocidental de sua opressão é baseado em má interpretação e manipulação política. As raízes da opressão patriarcal aprofundam-se na sociedade afegã - muito mais intensa do que o Talebã ou Al-Qaeda.

Segundo a autora, a percepção ocidental de que a liberdade das mulheres virá com a libertação dessas forças é simplista, na melhor das hipóteses, e prejudicial, na pior. “Os direitos das mulheres e a democracia não podem ser importados para o Afeganistão. Temos de fazê-lo segundo nossas normas e valores, caso contrário perderão os seus significados”, diz Hamasa, de Jalalabad.

Estratégias

As mulheres no Afeganistão têm vivido mais de 20 anos de guerra, guerra civil e conflito violento. Muitas profissionais e mulheres proeminentes escolheram ficar no país e trabalhar, aberta ou clandestinamente, a fim de dar poder às outras mulheres (tanto quanto crianças). A formação de redes e grupos de solidariedade às mulheres mais pobres foi estratégia de sobrevivência que elas colocaram em prática, construindo a base para criar capital social.

Por meio da criação de redes de confiança e de reciprocidade nos seus bairros, entre seus amigos e parentes, elas deram coesão às suas comunidades. Sob o governo do Talebã, essas redes e formas de solidariedade se tornaram mecanismos para conceder poder às mulheres.

Suraya Parlyka, chefe da União Nacional das Mulheres do Afeganistão, que se tornou parte integral do movimento das mulheres, dá o seu relato: “Sob o Mujaheddin, a arma de uma comunidade contra a outra era atacar, prender, estuprar, bater nas mulheres de outra comunidade em público. Sob o governo do Talebã, foram negados às mulheres seus direitos básicos à educação”, conta.

“Todo o tempo, nós continuamos nossas atividades, abertamente e secretamente, e isto nos permitiu dar as mãos umas às outras e sobreviver. Tanto durante a guerra civil e sob o Talebã, o suicídio era muito comum entre as mulheres. Durante o governo do Talebã, tentamos evitar que as mulheres cometessem suicídio quando as famílias impuseram casamentos forçados. Aconselhamos as mulheres para não lutarem contra suas famílias, a fingirem que aceitavam e quando a data se aproximasse, escapassem e nos procurassem para proteção. Salvamos um grande número de mulheres desta maneira. Nós organizamos fabricação de tapetes e outros trabalhos, e as mulheres foram capazes de sobreviver dessa maneira”, relata Suraya Parlyka.

____________________

Educação

Sob o governo do Talebã, as atividades das mulheres no Afeganistão eram concentradas na provisão de escolas secretas e sobrevivência. Um exemplo é o de Suraya Paikan, que estabeleceu a Associação de Mulheres Advogadas e Profissionais em 1998, em Mazar-e-Sharif, com 400 membros ativos, como mostra o audiolivro “Mulheres Afegãs”, de Elaheh Rostami-Povey (Editora Nossa Cultura).

Forçadas a sair do Afeganistão pelo Talebã, elas continuaram seus trabalhos em Peshawar, e em 2001 retornaram a Cabul. Aquelas que tinham as habilidades necessárias, transformaram seus lares em escolas secretas. Elas eram pagas por seus vizinhos, amigos e família. Dessa maneira, podiam sobreviver financeiramente.

O marido de Ghamar foi morto na guerra civil. Ela tinha uma filha, e ensinou secretamente mais de 800 estudantes na sua casa. As mulheres da vizinhança pagavam a ela tanto quanto podiam para ensinar suas crianças; sem ela, suas filhas seriam analfabetas.

____________________

Invasão ocidental x libertação

Ainda hoje as mulheres afegãs se sentem alienadas ao enfrentar o patriarcado, a falta de segurança e as estruturas sociais e econômicas. Além disso, agora vêem sua cultura sob ataque de um regime estrangeiro.

Nuria, de Mazar-e-Sharif, revela em “Mulheres Afegãs”, de Elaheh Rostami-Povey (Editora Nossa Cultura), a visão que muitas delas têm dos invasores ocidentais: “Nós os odiamos quando, em nome dos direitos das mulheres e dos direitos humanos, eles vêm e se intrometem na nossa privacidade. Continuam dizendo que as mulheres deveriam trabalhar e não entendem que as mulheres não estão felizes com o fato de que eles providenciam trabalho para elas, e não para os homens. Não funciona assim na nossa cultura. Nós queremos trabalhar lado a lado com nossos homens. Não podemos ignorá-los. Eles também precisam de educação e emprego”, diz ela.

Depois da queda do Talebã, as afegãs começaram a desafiar as relações patriarcais, mas também a percepção ocidental com relação às mulheres muçulmanas, especialmente a visão do uso da burca.

“O Talebã nos obrigou a usar o chaddari. Depois de tantos anos, ele se tornou parte da nossa cultura, nós nos sentimos confortáveis com isso. Nossa comunidade e sociedade não aceitam o conceito das mulheres sem o chaddari. Nós não vamos tirá-lo só porque o Ocidente quer... Algumas de nós talvez tirem, quando estivermos preparadas e a nossa sociedade estiver preparada. Ser pressionadas pelo ocidente a tirar o chaddari é tão mau quanto o Talebã obrigando seu uso. Nós temos o direito de decidir o que queremos usar”, explica Nasira.

____________________

Conheça a autora

Professora da Universidade de Londres com especialização em questões relativas a diferenças de gênero no Irã e no Afeganistão, Elaheh Rostami-Povey também apresenta relatos de mulheres e famílias afegãs que emigraram para o Irã, Paquistão, Estados Unidos e Reino Unido, revelando as dificuldades que encontram – da perda de status e racismo, nos dois primeiros, e, nos países ocidentais, discriminação religiosa e cultural, barreiras à integração e o desafio de se adaptar a sociedades tão diferentes e ao mesmo tempo manter sua própria cultura e suas tradições.

O livro “Mulheres afegãs” também aborda temas como o papel das ONGs nas questões femininas e o crescimento do mercado de ópio na economia afegã. A obra é o terceiro título lançado pela Nossa Cultura a partir da parceria com a britânica Zed Books, especializada em obras sobre questões sociais, culturais, políticas e econômicas de interesse mundial.

Os audiolivros permitem driblar a falta de tempo “ouvindo” os livros com um leitor de CD ou MP3 e celulares, no trânsito ou na academia, por exemplo. A Editora Nossa Cultura é especializada na produção de obras neste formato. Mais informações, no site www.nossacultura.com.br.

Comentários

Comentários