A professora Maria Isabel Nogueira Cano, do Departamento de Genética do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu (100 quilômetros de Bauru), comemorou duplamente a divulgação dos ganhadores do Prêmio Nobel de Medicina deste ano. Entre 1997 e 2000, na Universidade da Califórnia (Estados Unidos), ela fez parte da equipe de pesquisa da norte-americana Elizabeth Blackburn, uma das ganhadoras do prêmio no trabalho com os telômeros (extremos dos cromossomos).
O prêmio Nobel de Medicina/2009 foi conquistado pelos norte-americanos Elizabeth Blackburn, Carol Greider e Jack Szostak graças a um trabalho de pesquisa que pode levar à cura do câncer e a novas descobertas sobre o envelhecimento. Os três descobriram como os cromossomos podem ser copiados de forma completa durante a divisão de células e como são protegidos da degradação.
De acordo com Maria Isabel, que também pesquisa o tema na Unesp, as descobertas que geraram o prêmio foram feitas no início da carreira de Elizabeth Blackburn. “Na verdade o estudo dela gerou várias linhas de pesquisas em vários laboratórios. Eu trabalhei por três anos nessa linha de pesquisa”, relata. A pesquisadora ressalta que foram descobertas estruturas dentro das células que, se alvejadas em células cancerígenas, podem ajudar na cura de determinados tipos da doença.
Segundo ela, existem células normais com alta capacidade proliferativa, como células germinativas jovens, células-tronco embrionárias e algumas células somáticas. Entre elas estão as células endoteliais, endometriais em adultos e os linfócitos T e B (tipos de glóbulos brancos) quando induzidos à proliferação. Nestas, ao contrário do que ocorre na maioria das células somáticas, a telomerase se mantém ativa.
Entretanto, de acordo com a pesquisadora, as células que não têm esse poder de proliferação e que transpõem o chamado limite de ‘crise’ reativam a atividade de telomerase e continuam a se dividir indefinidamente. Tais células são consideradas ‘imortais’ e isso é o que acontece com 85% a 90% das células cancerígenas”, frisa.
Na questão do envelhecimento, o estudo pode ajudar na investigação de como não envelhecer. “As células do nosso corpo, a maioria, não têm atividades de telomerase. Isso significa que, embora elas contenham o gene que codifica a enzima, ele está inativo, não sendo capaz de produzi-la. Portanto, tais células se dividem por apenas 50 a 60 gerações antes que seus telômeros fiquem curtos para dar proteção aos cromossomos”, explica.
Quando alguns desses terminais, segundo Maria Isabel, chegam ao limite mínimo de tamanho (característico para cada célula), acabam as divisões celulares e começa o envelhecimento. “Esse ponto crítico, conhecido como ‘limite de Hayflick’, é uma das razões que explicam por que não podemos viver para sempre!”, frisa.
A tendência, completa a professora, é que com o passar dos anos, as células percam DNA nas extremidades dos cromossomos, exatamente onde está o telômero.“Isso acoplado a outras perdas, comum na fase mais madura da vida, nos leva a perder o controle de ciclo celular da divisão das células, que é sinônimo de ganhar várias mutações por exposição ao sol, a raios cósmicos ao estresse e outras questões que levam as nossas células a envelhecerem”, ressalta.
Segundo a professora, se o telômero é mantido na forma correta por mais tempo se consegue, por exemplo, sanar alguns dos prejuízos que são causados pelo fenômeno envelhecimento, que é sindrômica. “O envelhecimento é causado por vários outras coisas, além da perda do DNA telômerico”, aponta.
A professora da Unesp de Botucatu explica que é preciso entender que o telômero é um universo à parte. “Faz parte do cromossomo, mas esta estrutura é tão importante para manter o genoma da célula que ali, além da telomerase do DNA, tem uma enorme quantidade de proteínas atuando. Se descobriu que algumas síndromes que causam envelhecimento precoce nas pessoas são genéticas; têm origem em defeitos nos genes que estão ou que trabalham na maquinaria do telômero”, completa.
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O que são telômeros
A palavra tem origem grega. Telos significa fim e meros, parte. Os telômeros estão localizados nas ‘pontas’ dos cromossomos. Funcionam como capas protetoras dessas extremidades. Têm papel importante na manutenção da integridade do genoma.
Eles impedem, por exemplo, a fusão de terminais de diferentes cromossomos e a degradação destes por enzimas que, na falta dos terminais, reconhecendo o material cromossômico, como DNA danificado. Exemplificando, a pesquisadora Maria Isabel Cano compara o telômero a pedaços de fita adesiva que selam as pontas dos cadarços quando se desprendem. “Em uma célula, ocorre o mesmo com os cromossomos que têm seus telômeros danificados: eles tendem a ser destruídos e, nesse processo, a célula morre.