Após quase um mês de greve, o primeiro dia de trabalho dos bancários da Caixa Econômica Federal (CEF) de Bauru ontem teve agências lotadas e usuários insatisfeitos. O movimento grevista teve fim na noite de anteontem, quando os funcionários aceitaram a proposta feita pela direção do banco que prevê reajuste de 6% - sendo 1,5% de aumento real e 4,5% de reposição da inflação, Participação nos Lucros e Resultados (PLR) que varia de R$ 4 mil a R$ 10 mil, contratação de 5 mil bancários até 2010 e abono de R$ 700,00 a ser pago na folha de janeiro do próximo ano.
Mas apesar da abertura das agências, muitos bauruenses prejudicados pela paralisação voltaram para casa sem conseguir resolver suas pendências. Cristina Fagundes Rocha saiu da agência da CEF na rua Gustavo Maciel, no Centro, por volta das 16h de ontem, revoltada. Ela disse ter chegado por volta das 12h para sacar dinheiro com o Cartão Cidadão. “O dinheiro não está liberado e ninguém sabe me informar o porquê, nem quando vai ser liberado. Estou com esse problema desde o início da greve, tenho que pagar aluguel atrasado, corro o risco de cortarem minha luz e água porque também estão atrasadas”, revela.
Já a doméstica Ana Cláudia de Alencar, que é de Piratininga, ficou uma hora e meia na fila para retirar um cartão, mas voltou para casa com as mãos vazias. “Eu precisava ter retirado este cartão há duas semanas. Vim para a cidade outras vezes e me deparei com as portas fechadas. Hoje, após mais de uma hora na fila, mesmo eu tendo o protocolo, a certidão de nascimento em mãos e foto, eles não me liberaram porque não tenho o RG”, revela. “Agora, vou ter que voltar amanhã para tentar retirar. Preciso disso”, acrescenta.
No período da greve, o representante comercial Marcos Roberto Martins enfrentou problemas com cheques de clientes que foram devolvidos. “A maioria dos trabalhos faço pelo caixa eletrônico, mas neste período tive que correr atrás dos cheques devolvidos. Não conseguia resgatar os cheques para entrar em contato com os clientes. Tive que procurar funcionários de outras agências, deu trabalho”, revela.
Por volta das 15h50 de ontem, mais de 50 pessoas ainda aguardavam atendimento na agência da rua Gustavo Maciel. Apesar de todas as agências da CEF terem funcionado normalmente ontem, alguns funcionários devem voltar ao trabalho apenas hoje, informou Marcos Tadeu Lenharo, diretor do Sindicato dos Bancários de Bauru e Região, filiado à Conlutas.
“No nosso entender, a proposta é absurda. Por isso, na assembléia que ocorreu anteontem, recusamos a última proposta. Mas infelizmente, o comando nacional, que é da CUT, orientou todos os bancários a aceitarem a proposta. O que desmotivou o movimento, pois para o trabalhador, quando vê seus representantes claramente saindo de cena, ele vê que o esforço não valeu de nada, que o movimento já era”, afirma Lenharo.
“Isso mostra que eles viraram as costas para os trabalhadores. Eles conseguiram desmontar a greve em praticamente 90% das bases sindicais brasileiras. Para não ficar em um movimento isolado, mesmo porque minoria não muda resultado, votamos. Alguns bancários se mantiveram firmes na greve, inclusive ontem, mas hoje todos já voltam ao trabalho”, acrescenta.
Os bancários reivindicavam aumento salarial de ao menos 9%, equivalente ao índice concedido aos funcionários do Banco do Brasil. A paralisação foi a maior desde 2004, quando o impasse entre patrões e empregados só foi definido por meio do Tribunal Superior do Trabalho (TST). “A campanha salarial de 2009 terminou. Foi uma derrota do ponto de vista dos avanços das conquistas, mas vitória no âmbito político. Os bancários tiveram um crescimento político grande”, finaliza Lenharo.
A Caixa foi a última instituição financeira a voltar ao trabalho no movimento de greve nacional dos bancários, que envolveu bancos públicos e privados e durou 15 dias. Além do reajuste, contratações e abono, a proposta da CEF prevê o não-desconto dos dias parados, que serão compensados com jornada suplementar. Além disso, a Caixa concorda em discutir na mesa de negociação permanente os dias descontados das greves de 2007 e 2008.