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O Evangelho de Judas

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Em recente entrevista o presidente Lula deu pistas seguras aos que querem entender a lógica das suas alianças políticas. No plano nacional, Lula falou sobre a sua aproximação com Sarney, presidente do Senado; com Fernando Collor e Jader Barbalho. Todos ícones de uma velha política marcada pelo nepotismo, a corrupção e pelo tráfico de influência. “Não tenho relações de amizade, mas institucionais”, afirmou. Mais adiante, na mesma entrevista asseverou em tom javético: “Entre o que se quer e o que se pode fazer tem uma diferença do tamanho do Oceano Atlântico. Se Jesus Cristo viesse para cá e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão”. E será que estes dois já não conchavaram no passado? O pergaminho encontrado do denominado “Evangelho de Judas” apresenta Judas Iscariotes como “fiel discípulo” de Cristo que traindo-o – segundo o livro a pedido do próprio Cristo – estaria fazendo cumprir a profecia da morte do enviado de Deus. Os escritos apontam Judas como o discípulo mais amado de Jesus e o único que seria capaz de compreender a verdadeira missão do Messias. A suposta traição seria em verdade uma vontade de Jesus, que teria pedido a Judas que o entregasse aos romanos. Judas não teria se suicidado, mas diabolizado no Novo Testamento com a intenção de agredir o povo judeu, como responsável moral pela morte de Cristo. O Evangelho de Judas é desqualificado pela Igreja e considerado “apócrifo”. Evidentemente por contradizer a versão universalmente aceita de que Judas seria um traidor.

São curiosidades sem reconhecimento canônico, ou seja, sem autoridade espiritual para ser seguido como regra de fé e prática. Mas é um ponto de vista da época. O que ficou é que “o beijo de Judas” tornou-se símbolo da amizade falsa e da hipocrisia. Jesus nunca fez alianças com os fariseus e saduceus, como comentou o secretário geral da CNBB Dom Dimas Lara Barbosa. Para colocar uma pitada de humor em coisa tão séria, Jesus jamais iria propor uma boquinha no reino dos céus para o seu inimigo de ontem, em troca da adesão. Lula admite alianças, nem que seja com pessoas tão malhadas quanto os bonecos do Sábado de Aleluia. Desde que possam, de alguma forma, ajudar o seu projeto de poder. A frase do presidente expressa um pensamento que está materializado no governo do PT. Um pensamento, segundo o qual a bandeira da ética, empunhada durante anos pelo Partido dos Trabalhadores, serve para arrebanhar seguidores, serve para o discurso, mas não para a vida prática. Para o partido vale tudo em troca do apoio para as suas idéias continuistas e da ocultação das suas faltas. Vão-se os valores, fica o poder. Fazer campanha disfarçada em fiscalização e inauguração de obras públicas faz parte do vale-tudo. Que se dane a admoestação do presidente do Supremo Tribunal Federal. A estratégia é deixar o adversário nervoso. Para Lula o papel da imprensa não é fiscalizar, mas apenas informar. Talvez seja este ponto de vista uma explicação para Lula considerar Cristina Kirchner uma grade presidente. Centenas de fiscais federais invadiram a sede do Clarín, jornal que faz oposição aos Kirchner. No começo do mês, pressionado pelo governo o Congresso Argentino aprovou uma lei que coloca a concessão de licenças para emissoras de tevê e rádio sob controle estatal.

O Tribunal de Contas da União só faz por emperrar as obras do PAC e deveria ser substituído por um Conselho mais maleável. Lula assim quer. Veja até que ponto o poder corrói a mente. É uma kriptonita que enfraquece os sentidos a ponto de uma pessoa se colocar em paralelo a Jesus. E contagia. O senador Suplicy, entorpecido pelas mesmas radiações verdes vestiu a sunga do Super-Homem, depois de dar o cartão vermelho ao presidente do Congresso e imitar Bob Dylan em “Blowing in the wind”, no microfone do plenário.

A reeleição foi um grande erro cometido por Fernando Henrique Cardoso. Agora entendo porque em Honduras, pequena nação centroamericana, a Constituição proíbe e pune com a cassação qualquer tentativa de mudar a lei para permitir mais um mandato, mesmo alternado. No Brasil a estrutura política frágil admite atitudes antiéticas em nome do pragmatismo, que somente a alternância no poder poderia minimizar.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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