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Escolas se adaptam com o exame

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 4 min

Desde sua criação, em 1998, o Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) apresenta uma proposta inovadora. Ele propõe uma abordagem interdisciplinar do conhecimento e vincula mais fortemente teoria e prática. A prova procura aferir a capacidade de raciocínio do aluno. E essa característica ficou ainda mais evidente com as mudanças que foram feitas para a avaliação deste ano. O novo Enem ficou mais complexo e passou a adotar uma metodologia mais moderna, que permite elaborar melhor o conteúdo. Um cenário que leva os educadores a acreditar que esse tipo de avaliação será capaz de, finalmente, levar à renovação do ensino médio.

No entanto, essa é uma daquelas mudanças que demoram a ser concretizadas. Ainda mais quando envolve poder público, no caso as escolas públicas. Tudo indica que o Enem veio para ficar. Cada ano que passa, ele aumenta sua importância e abrangência. A partir deste ano, por exemplo, o exame passa a ser o único ou um dos principais instrumentos de seleção de candidatos para 45 universidades federais. Isso sem falar do peso que tem recebido para aprovação nas universidades estaduais.

Apesar disso, o impacto do sistema de avaliação do Enem sobre os currículos e a metodologia de ensino nas escolas ainda é tímido. Em Bauru, pelo menos uma escola particular já começou a se preocupar com a preparação de seus alunos para enfrentar o estilo de prova do Enem.

A partir do ano que vem, o Colégio COC passará a adotar a Teoria de Resposta ao Item (TRI) em todos os simulados a partir da 4ª série do Ensino Fundamental. A TRI é uma metodologia que permite identificar os alunos mais capazes não somente pelo volume de informação assimilada, mas por sua capacidade de aplicar todo o conhecimento adquirido.

O próprio mantenedor do Colégio COC, em Bauru, William Bornia Jacob, admite que as escolas são muito conteudístas, ou seja, ficam demasiadamente preocupadas em passar conteúdo para seus alunos e se esquecem de ensiná-los a aplicar e a relacionar o que aprenderam à vida atual.

Ele conta que as escolas de ensino médio estão numa encruzilhada. Segundo William, enquanto os grandes vestibulares também não se adaptarem ao sistema de avaliação do Enem, as escolas terão de continuar ensinando apenas conteúdo a seus alunos. “Nós vamos ter de prepará-los para os dois tipos de provas”, afirma.

Com o aumento da importância do Enem na aprovação para os principais vestibulares, a tendência, pelo menos é isso que se espera, é que as escolas se adaptem à nova realidade. “As escolas terão de se adaptar a essas mudanças, senão os alunos não vão conseguir boas notas no Enem”, reconhece Coolidge Hercos, diretor do Colégio Coolidge, que oferece cursinho e ensino médio.

Na opinião dele, o sistema de avaliação dos alunos está mudando, principalmente, porque o mercado de trabalho está exigindo essa mudança. “Hoje é difícil uma empresa contratar um profissional que não tem uma visão geral de mundo e não saiba relacionar fatos”, comenta. Se as principais universidades estão aderindo ao Enem é porque elas estão de acordo com a proposta, acredita o diretor.

Para a pedagoga Mariane Magalhães, o estilo de prova proposto pelo exame nacional favorece quem gosta de ler. Na opinião dela, assim fica mais fácil entender o enunciado da questão e relacionar o que se aprende na escola com o que se passa fora dela. “Os enunciados das questões trazem textos grandes, usam imagem, música, receitas, enfim, trabalham com todo tipo de leitura.”, opina ela.

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Tendência internacional

A doutora em educação Alexandra Bujokas diz que se a intenção é preparar os alunos para enfrentar o mundo do trabalho, estimulá-los a serem inovadores e criativos e torná-los ajustados às exigências econômicas, culturais e políticas do mundo contemporâneo é esse tipo de avaliação que deve ser feita.

“Numa política educacional que queira mudar a cara da educação básica o primeiro passo é fazer o que o Enem está fazendo”, enfatiza ela. “Essa é uma tendência internacional, porque o mundo é assim”, justifica. Segundo Alexandra, à medida que os exames cobram esse tipo de postura as escolas terão de se adaptar para preparar seus alunos. “Conseqüentemente, alguma coisa vai mudar na educação”, aposta.

Para a doutora, a proposta do Enem é positiva porque procura explorar a habilidade de leitura dos alunos, especialmente depois da massificação da Internet e de outros meios de comunicação. O volume de informações cresceu absurdamente. “Nesse cenário de abundância, as pessoas têm de saber selecionar as informações, avaliar a credibilidade das fontes e fazer relações. São habilidades exigidas para que as pessoas consigam desempenhar seu papel de cidadão, tirar proveito como consumidores e se integrarem ao mundo do trabalho”, afirma.

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