Reconhecido internacionalmente pela sua luta em prol dos direitos humanos, Frei Betto esteve em Bauru na noite de ontem, participando da conferência de abertura do seminário “Segurança Alimentar e Nutricional: Impactos e Perspectivas”. Para o frade, o governo federal teve avanços sensíveis no combate à fome, mas ainda precisa investir em políticas públicas que promovam a emancipação dos beneficiados. Em entrevista à imprensa, ele criticou a falta de ações de segurança alimentar e avaliou o governo Lula (leia mais no texto abaixo).
Frei Betto destacou os avanços da União no combate á fome. “O governo reduziu em 50% o número de famintos crônicos no Brasil. Isso é meritório. Mas, não sabemos como eles vão se manter no futuro. Porque para isso, seria preciso uma política emancipatória que era o Fome Zero, que o próprio governo criou e descartou”, avalia.
Para ele, o programa Bolsa Família manteve a preocupação em sanar a fome, mas se esquivou em tornar os beneficiados independentes do governo. “É um programa bom, mas é muito mais precário que era o Fome Zero. Dá dividendos eleitorais, mas cria uma situação de dependência. É compensatório e não emancipatório. Dessa forma, não resolvemos ainda o problema da segurança alimentar”, critica.
Ele destaca o fato do Brasil ser um dos maiores produtores agrícolas do mundo, mas ainda sustentar índices graves de problemas nutricionais. “Somos um dos maiores produtores mundiais de alimentos, mas nossa produção é voltada à exportação. As pessoas ainda comem mal, pouco, aquém das suas necessidades nutricionais e ainda pagam caro por alimentos básicos, como proteína”, observa. “Peixe, então, nem se fala. Temos uma costa de mais de oito mil quilômetros e peixe é artigo de luxo. É uma grande contradição”, ressalta.
Frei Betto destaca que a melhor alternativa seria a manutenção do Fome Zero em sua versão original. Ele também afirma que a política pública de segurança alimentar deveria ser efetivada. “Ela existe, mas não é aplicada. E na verdade, deveria ser uma constante em todo País”, destaca. Ele sita como exemplo uma ação que conheceu em Nairobi, no Quênia.
Lá, a administração municipal deu isenção de impostos a proprietários de terrenos baldios que permitem a plantação de hortas e pomares nesses espaços. A produção é utilizada pela comunidade. “Coisa mais simples essa, você urbanizaria os terrenos baldios e como eu vi em Nairobi, as pessoas entregam o que sobra para escolas, hospitais, creches”, conta.
Apontada como uma das grandes obras para combater a miséria e a fome no Nordeste, a transposição do Rio São Francisco foi criticada pelo frade dominicano. “Eu sou radicalmente contra, pelo critério que utilizo. Eu procuro ver as coisas pela ótica dos pequenos e não dos grandes. Quando uma obra é demasiadamente elogiada pelos grandes latifundiários do Nordeste e criticada pelos movimentos sociais, você não vá achar que eu acredite que isso é bom”, pontua. “Ou seja, aquilo vai irrigar as terras dos latifúndios, dos usineiros. É uma obra voltada para o agronegócio, assim como é o fato do governo não agir contra o desmatamento com a energia que deveria. É um conluio do grande capital”, afirma.
Seminário
O seminário é uma iniciativa do programa “Mesa Brasil”, programa do Serviço Social do Comércio (Sesc) e com apoio da Universidade do Sagrado Coração (USC) e da Secretaria de Bem-Estar Social (Sebes). Ele termina hoje com participações do presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), Renato Maluf, e a professora Egli Muniz, da Instituição Toledo de Ensino (ITE). À noite, a partir das 19h, integram a programação as conferencistas Darlene Tendolo, secretária do Bem-Estar Social, e Rita Cristina Chaim, professora da USC. O encerramento contará com a palestra da socióloga Anna Maria de Castro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
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‘Falta de vontade política emperra mudanças’
Para Frei Betto, apesar dos grandes avanços em algumas áreas, o governo Lula perdeu a chance de promover alterações estruturais significativas. “O Lula é melhor para o Brasil e América Latina que qualquer outro presidente da história do País. É um governo que avançou muito na questão do controle da inflação, nota mil na política externa, implementou políticas sociais importantes”, enumera. “Mas, lamentavelmente, são sete anos sem reforma de estrutura. E a grande bandeira do PT é que uma vez no governo, faria algumas reformas de estrutura, como a agrária, a tributária e a política. E nenhuma delas foi feita até hoje”, destaca.
Ele também lamentou a aprovação da produção de alimentos transgênicos, a falta de ênfase na preservação do ambiente. “E lamento que os arquivos das forças armadas referentes ao período da ditadura não tenham sido abertos até hoje”, diz. Frei Betto foi preso e torturado durante os anos de governo militar no País.
Ele afirmou que tem esperança que o próximo governo promova essas mudanças. “Aprendi, quando estive no Planalto, que o governo é como feijão: só funciona na panela de pressão. Se depender de mim, continuarei a pressão nesse sentido”, destaca. Perguntado sobre seu voto nas próximas eleições, ele não se furtou em responder. “Hoje, eu vou votar em primeiro turno na Marina (Silva). Em segundo turno, em Dilma (Roussef), se a disputa for entre ela e Serra”, afirma.
O frade também avaliou a atuação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). “Eu sou radicalmente solidário ao MST mesmo em episódios como esse (o da invasão da fazenda da Cutrale em Borebi), que não foi feito pelo MST. O MST nunca teve trator, nunca teve equipamento para fazer aquela filmagem. Isso tudo foi armado por quem denuncia o MST”, observa.
Para Frei Betto, a aliança do PMDB com o PT é “promíscua”. “Alguém está equivocado nessa história. E lamento que o PT, tendo condições de fazer alianças com a sociedade civil, prefira um partido que só tem um objetivo: ’hay gobierno, soy a favor’. Esse é o princípio básico do PMDB. Com exceções de um Roberto Requião, um Jarbas Vasconcelos, Pedro Simon. São vozes heróicas dentro do partido”, diz.