A professora aposentada Ivone Francisco de Souza, 81 anos, sempre quis aprender a tocar violão. Na infância, teve uma oportunidade, mas acabou trocando um papagaio por um instrumento rachado. O tempo passou, seis filhos vieram, cresceram e se casaram e, finalmente, Ivone viu que tinha chegado o momento de realizar seu sonho. Há um ano, passou a ter aulas de violão e hoje se apresenta em barzinhos dos Altos da Cidade e com seu grupo de seresteiros. Mas o instinto de professora permanece e Ivone já arrumou três alunas para ensinar a técnica.
Ivone conta que sempre gostou de cantar. Quando tinha 12 anos, morava em Pongaí, onde costumava cantar com um papagaio. Um vizinho, encantado com a ave, ofereceu um dinheiro a Ivone pela ave. Ela se recusou a vender o bichinho de estimação, mas teve uma idéia. Perguntou se o vizinho trocava um papagaio pelo violão que possuía.
“Eu subi em um tronco seco de uns dez metros, onde sabia que tinha um ninho de papagaio. Peguei um filhotinho e comecei a tratar com fubá. Quando ele já estava com penas, fui até a casa do homem, que estava se mudando de cidade, fazer a troca”, relata. Mas Ivone acabou levando a pior. “Ele me deu um instrumento rachado. Não saía som direito. Chorei muito”, lembra.
Com pena, um padrinho endinheirado comprou para a menina um violino. “Era lindo, todo forrado. Mas não era o que queria. O som saía arranhado”, conta. Ela diz que aprendeu a tocar apenas uma música no violino, uma valsa, para agradar a mãe. “Quando a situação apertou, tive que vendê-lo para pagar o supermercado”, conta.
Ivone se mudou para Pirajuí, casou e teve seis filhos. O marido, conta, não gostava muito de música. Por isso, o desejo de aprender a tocar violão ficou guardado durante anos. Mas há 10 anos, Ivone voltou a cantar. Formou um grupo de seresta, que se reúne todas as noites de sábado em sua casa. “Sempre tem um petisco, um pudim, às vezes a gente organiza um jantarzinho e fica até o arroz secar”, conta. As sessões varam pela madrugada e terminam com um cafézinho. “Teve vez que o pessoal só foi embora pela manhã.”
Mas o grupo começou a enfrentar a dificuldade de não encontrar um violeiro para acompanhar as reuniões. “Tem gente que cobrava para tocar, outros não conheciam as músicas que costumávamos cantar. Então resolvi procurar um professor”, conta. Assim, Ivone decidiu que estava na hora de realizar seu sonho.
Com apenas três meses de treinamento, fez sua primeira exibição para platéia, em um bar da rua Antônio Alves. “Meu professor decidiu que iria tocar uma música e fiquei praticando muitos dias para conseguir. Na hora, o pessoal cantou junto, bateu palmas, me incentivou muito”, conta.
Pronto. Foi o que faltava para Ivone abraçar de vez a nova carreira. Ela costuma se apresentar em bares dos Altos da Cidade e fica até o final da noite. Em suas viagens, cantou na Venezuela, Espanha e Portugal. “O pessoal deve pensar, ‘olha lá que gracinha a velhinha tocando violão’”, se diverte.
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Música
Ivone conta que prefere tocar boleros, mas entre as músicas que mais gosta está a versão em espanhol de “My Way”, clássico imortalizado na voz de Frank Sinatra. Mas ela informa que ainda está praticando. “Todos os dias, depois do almoço, sento na cadeira e treino até anoitecer”, garante. Para comemorar os 82 anos, que completará na sexta-feira, a família de Ivone está preparando uma grande festa. “Já confirmaram 100 pessoas. Vamos varar a madrugada”, garante.
Ivone faz questão de ressaltar que a música e a poesia - ela também é poetisa - sempre fizeram parte de sua vida. Quando era professora, compunha músicas para ensinar às crianças assuntos como ciências. “Compus uma canção sobre as partes das flores que elas adoravam”, destaca.
Ivone ainda precisa vencer alguns desafios. Entre suas dificuldades está um problema em um dos ouvidos. “Eu precisei passar por uma operação e coloquei um aparelho. Mas não faz mal, o outro funciona direitinho e compensa”, brinca. Outro problema é a recomendação médica de não cantar mais. “O médico disse que é para eu parar de cantar, para não agravar um problema na minha voz. Mas eu não vou parar, não”, garante.
“Nunca pensei que fosse superar toda a minha existência para tocar violão. Agora, fazemos serenatas para as vizinhas, só para fingirmos que ainda estamos naqueles tempos”, diz. Ela também incentivou três amigas a superar as dificuldades e aprender a tocar violão. As alunas, de 66 anos, 42 anos e 35 anos, já tocam músicas de Roberto Carlos com apenas dois meses de aulas.
Para o futuro, Ivone garante que não vai parar com a música. “Aceito convites para tocar em festinhas e não cobro nada. Acho que quando não tiver onde me apresentar, junto a cadeira e toco na rua, mesmo”, garante.