Pesca & Lazer

História de pescador: Caravana do Tio Cesto - Parte 2


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Pois bem, voltando a 1988, na tarde seguinte ao embarque, quando o trem passou pela região da serra da Bodoquena, o Carlão e outros cozinheiros ficaram nas janelas dos vagões balançando pedaços de carne e um bando de gaviões, em manobras precisas, iam pegando seus nacos.

A chegada em Porto Esperança aconteceu tarde da noite, e só depois de muito repelente de insetos é que conseguimos dormir ali mesmo no “nosso” vagão, que foi desligado da composição e deixado às margens do rio Paraguai.

Ao raiar do dia, todos pularam para um rápido cafezinho preparado pelo Gêra e a nova maratona, de descarregar tudo, passar para a barcaça e seguir rio acima até o Rancho da Associação, onde finalmente acomodamos a enorme e pesada “tralha”, tomamos um delicioso banho de ducha e sentamos na varanda para apreciar a paisagem e saborear os aperitivos e as cervejas servidas pelo Gêra, enquanto o Carlão ultimava nosso primeiro almoço no rancho daquele ano.

Após o almoço quase todos foram pescar. Eu e o Tio Cesto ficamos batendo papo-furado até que ele, do alto de seus mais de 70 anos de idade e muita experiência, teve uma brilhante idéia. Fizemos um colar com umas 20 latinhas de cerveja vazias e linha de pesca.

Depois escondemos esse colar embaixo de sacarias de pano e outras coisas leves e fomos esticando e passando a linha em ganchos improvisados na parede até o outro lado da varanda, onde ficava o meu quarto e passamos a linha até minha cama, no alto do beliche. Tudo amarrado, testamos e funcionou maravilhosamente. Da minha cama eu puxava a linha de pesca que arrastava o colar de latas e sacarias do outro lado do rancho, provocando enorme barulho!!!

Na madrugada, todos dormindo, comecei a puxar o colar e pouco a pouco alguns foram acordando com o barulho. O gerador estava desligado, portanto tudo estava muito quieto e escuro, quando percebi que acenderam uma lanterna e começaram a procurar.

Meu pai e o Mirto, que dormiam no meu quarto, acordaram com o tropé de dois outros pescadores da Caravana que, com revolver e lanterna em punho, vasculhavam o rancho à procura do bicho na varanda - “Pelo barulhão, deve ser grande!!!”, diziam -.

Minha risada abafada pelo travesseiro intrigou ainda mais o Mirto e meu pai, quando cochichando lhes expliquei o que acontecia. Da mesma forma o Tio Cesto explicou aos seus companheiros de quarto, enquanto no quarto do Thomaz todos continuaram dormindo, alheios a tudo, protegidos pelo seu poderoso ronco.

Depois de alguma procura finalmente aqueles dois pescadores descobriram o colar de latinhas e começaram a seguir a linha quando tratei de puxá-la com bastante força, estiquei bem e cortei com o canivete. A linha voltou como um elástico e não conseguiram saber até que cama seguia. Todos continuaram fingindo que dormiam enquanto os dois também começaram a rir da brincadeira e voltaram para suas camas prometendo retribuir.

Naquela pescaria e nas várias outras incursões da Caravana do Tio Cesto ocorreram outras tantas histórias engraçadas que poderei contar noutras vezes, se meus companheiros pescadores permitirem...

Antonio Carlos Piccino Filho é pescador e contador de histórias. E-mail antonio@piccino.com.br.

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