Articulistas

Pedófilo virtual

Ronaldo Duran
| Tempo de leitura: 2 min

Já foi o tempo em que as crianças deliciavam-se com as histórias que avós contavam no começo da noite, de preferência após o jantar, quase na hora de ir dormir. Todos boquiabertos, ouvindo atentamente a historieta. Tudo bem! Havia os que perdiam o sono, acordados que eram por pesadelo. No conjunto, valia a pena. Hoje, o tempo é tão escasso. Mal se tem oportunidade de ver a criança acordada quando se chega do trabalho, imagina contar história. Muitos pais saem para trabalhar bem cedinho quando o filho está dormindo e retornam tarde da noite, com a criança embalada em sono firme. O dia na creche, escolinha, é a rotina. Sorte para aqueles que têm avós ou babás que os permitem ficar em casa nalguma parte do dia.

A menina que liga seu computador é uma espécie de exilada dos pais. Desde que se conhece, vive em creche, escolinha, com babá. Pai e mãe juntos, só no fim de semana, feriado. Isto quando não acontece o previsível imprevisto de um dos pais terem que se ausentar. A mãe, diretora de escola. O pai, cirurgião. O computador é a válvula de escape da adolescente. Ano passado, ganhou a câmera que se acopla ao computador para gravar e levar suas imagens para o mundo virtual. “Quase todas minhas amigas têm uma”, ela alegou para convencer os pais a comprar. O computador competia com a escola em número de horas que arrancavam da menina. Com a câmera, o computador vencerá a partida. Madrugadas serão somadas ao tempo online. Muitas vezes os pais nem tomarão conhecimento.

Dois meses de webcam, um incidente. Um visitante entra no seu mundo virtual. No início, se apresenta como um garoto de 15 anos. Depois nota-se, pela fala, que é um marmanjo disfarçado. Confisca as senhas msn, orkut... A menina tenta se desvencilhar, o marmanjo insiste. Diz que a deixará em paz se ela mostrar certas coisas. Situação que uma menina mais velha, ou mesmo uma em sua idade saberia como resolver se consultasse um adulto na família. Mas para ela, isolada no mundo virtual, tornava-se intransponível.

O marmanjo diz ter imagens assim de suas amigas, e menciona nomes... A menina cede em troca da falsa promessa de ele a deixar sossegada. Semanas mais tarde ele retorna com nova chantagem. A menina deve mostrar mais coisas. Ele ameaça espalhar para toda a internet as imagens na qual ela mostra os seios.

O sofrimento é notório. Sem vontade de estudar, de almoçar, de passear. Os pais se limitam a achar que é mania de adolescente, que esta fase vai passar... Afinal não têm tempo nem para si, precisam trabalhar, precisam ganhar mais para gastar mais e mais. Torçamos para que um adulto, pai, professor ou médico consiga livrar a menina das garras do pedófilo virtual, antes que seja tarde demais...

O autor, Ronaldo Duran, romancista, é autor do livro “Ando de Ônibus, Logo Existo”

Comentários

Comentários