O cenário e o horizonte na zona rural, nos campos e nos contornos das grandes cidades há anos vem ganhando um desenho bem diversificado do que podia ser visto há 50 anos. Não apenas as grandes máquinas, os implementos agrícolas, tratores de última geração e enormes pivôs de irrigação participam da cena rural do Brasil. O campo, assim entendido onde se produzem alimentos, passou a ser um conjunto geográfico no qual convivem grandes traçados de linhas de transmissão de eletricidade de alta tensão, torres metálicas para suportar esses cabos e um formigueiro de redes de distribuição que chegam até as portas de fazendas, frigoríficos, granjas, avícolas, sítios, chácaras e grandes empresas do agronegócio. Esse novo emaranhado físico traz consigo uma preocupação: a intrincada permanência do elemento humano nesse cenário e os riscos de acidentes dessa relação.
Os maiores perigos estão relacionados à proximidade dessas instalações com os trabalhadores. Um menor descuido pode se transformar em tragédia. Não raro as estatísticas apontam acidentes com eletricidade nas atividades de colheita da cana, no transporte de alimentos, nas construções de cercas e alambrados. Por isso o esforço de prevenção deve ser mais que redobrado nessas situações. Nas queimadas, por exemplo, provocadas sem um prévio planejamento, as consequências para a população em geral são as piores. Há desligamentos das redes elétricas, queda de cruzetas de madeira que sustentam os fios, comprometimento dos cabos, fazendo com que percam sua capacidade mecânica, podendo provocar até seu rompimento, quedas de postes de madeiras devido ao fogo na sua base e cabos energizados no solo expondo as pessoas a situações que podem levar a acidentes mais sérios.
Perto das redes elétricas e das linhas de alta tensão todo cuidado é pouco. A movimentação e o trabalho nesse entorno exigem uma preocupação adicional. Em algumas situações, em razão de remanejamento do solo para o plantio (curvas de nível), a altura dos fios em relação ao solo acaba ficando abaixo do recomendado pelas normas de segurança e qualquer vacilo ao levantar uma ferramenta ou escada pode provocar um acidente de consequências trágicas.
Os trabalhadores rurais devem prestar especial atenção nas redes elétricas em curva. Muitas vezes os postes precisam ser escorados por um cabo de aço estirado até o solo, que ajuda a mantê-lo ereto. Se um trator, escavadeira ou colheitadeira, por descuido do operador, arrasta esse cabo, acaba levando junto o poste e a rede elétrica. Outra situação parecida ocorre com os aspersores e as roçadeiras no plantio e irrigação. Às vezes o operador esquece de abaixar os braços do equipamento durante seu transporte e ao se aproximar da rede elétrica, acaba provocando curtos-circuitos e acidentes elétricos.
Após a colheita da cana-de-açúcar, a amarração da carga nos caminhões deve ser feita com muito critério e segurança. Como são usados cabos de aço nessa amarração, muito cuidado deve ser tomado ao lançar esse material que pode tocar a rede elétrica causando até acidentes fatais.
Uma das medidas que devem ser obrigatóriadevem ser obrigatórias, independentemente de qualquer aviso, é o respeito às faixas de servidão, aquele corredor de 30 ou 40 metros embaixo das linhas elétricas. São proibidas construções nessas áreas e as plantações não devem possibilitar queimadas na base de torres e postes nesses trechos.
Os riscos existem em todo lugar, mas com precaução, planejamento, práticas prevencionistas e respeito à vida é possível reduzir as estatísticas de acidentes elétricos no campo. Caso não seja possível eliminar todos os riscos, a opção é minimizar ao extremo sua existência, evitando maiores chances de ocorrerem acidentes. Só assim vamos aliar crescimento da produção no Brasil com respeito às pessoas e aos trabalhadores envolvidos nesse desafio de transformar o país em uma potência agrícola.
O autor, Luiz Carlos de Miranda Jr., é gerente de segurança do trabalho, saúde e qualidade de vida da CPFL Energia