Bairros

Infestação do Aedes é maior da década

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 6 min

Quando a dengue parecia estar sob controle em Bauru, o último levantamento sobre o nível de infestação do mosquito Aedes aegypti na cidade acendeu o sinal amarelo para a proliferação da doença. Realizada anualmente em todos os meses de outubro por equipes de controle de vetores da Vigilância Sanitária da Secretaria Municipal de Saúde, a avaliação de densidade larvária (ADL) do transmissor da dengue em 2009 registrou Índice de Breteau de 4,95.

Na prática, significa dizer que, de cada 100 casas pesquisadas, quase cinco estavam infectadas. A incidência recorde nos últimos 10 anos para meses de outubro é considerada altíssima pela secretaria e acima do preconizado pelo Programa Nacional de Controle da Dengue, coordenado pelo Ministério da Saúde (de até 1%). “Em anos anteriores o índice foi sempre abaixo de 1. Mas o outubro atípico, chuvoso e quente que tivemos neste ano favoreceu o aumento da infestação”, observa o diretor da Vigilância Sanitária da Secretaria de Saúde, Flávio Tadeu Salvador.

De acordo com o Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em outubro as temperaturas chegaram a 33,2 graus e choveu 129,5 milímetros em Bauru, o segundo maior acumulado pluviométrico dos últimos nove anos. Com tanta umidade e calor, os ovos do Aedes aegypti eclodiram mais cedo, antecipando o ciclo da dengue na cidade.

“Os ovos que foram depositados no fim do verão de 2009 e que ficaram adormecidos por falta de chuva, têm condições de eclodir até um ano depois. Com essa antecipação climática das condições para esses ovos eclodirem, o ciclo de infestação começa antes do habitual”, detalha.

Ele lembra que, com a chegada do verão, o índice costuma ultrapassar os 14%, mas destaca que índices abaixo de 1% registrados em outubro de outros anos já precederam épocas de grandes transmissões. “Agora, com essa grande quantidade de larvas do mosquito, se não forem erradicadas, a facilidade de transmissão é muito maior”, frisa.

Antecipação

Segundo o diretor, a cidade ainda não apresenta problemas quanto ao número de pessoas infectadas pelo mosquito, mas o Índice de Breteau acima do normal mostra que é preciso ficar alerta para o risco de epidemia de dengue no início de 2010. Até o final de agosto, Bauru totalizava apenas 20 casos confirmados de dengue, sendo 18 autóctones e dois importados.

Há dois anos, foram registrados 2.131 casos da doença, 86 só no primeiro bimestre. Em 2008 o número caiu e foram reportados à Secretaria Municipal de Saúde 146 casos durante todo o ano, sendo 49 em janeiro e fevereiro.

“Há muitas teorias que explicam que dengue se comporta mesmo desta maneira. Ela atinge número altíssimo de pessoas em um ano e, no ano seguinte, apresenta uma queda. Como estamos em um ano tranqüilo, trabalhamos com a possibilidade de uma grande transmissão para o ano que vem”, frisa.

Para tentar antecipar o combate a uma eventual epidemia, a secretaria iniciou campanhas de orientação e limpeza nas áreas da cidade consideradas mais críticas, ainda na segunda quinzena de outubro, para conscientizar a população a colaborar para a erradicação do transmissor da doença. “Também estamos monitorando os casos suspeitos de dengue que chegam à rede municipal de saúde e desencadeamos todas as ações no entorno da residência daquela pessoa para verificar se há mais moradores infectados e reduzir o número de criadouros”, completa.

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Bairros mais atingidos

Embora o Índice de Breteau em Bauru tenha atingido marca recorde para meses de outubro, existem áreas que alcançaram níveis ainda mais elevados e preocupantes. É o caso de três zonas da cidade.

Na região que abrange o Parque Jaraguá, Santa Edwirges e Nova Esperança, por exemplo, o índice chegou a 10,2, mais que o dobro da média registrada na cidade.

Já na área que inclui a Vila Dutra, Vila Falcão e Vila Industrial, a medição chegou a 7,7 imóveis infectados a cada 100 visitados. No Núcleo Gasparini, Pousada da Esperança e Vila São Paulo, o índice ficou em 5,9%.

De acordo com o diretor da Vigilância Sanitária da Secretaria de Saúde, Flávio Tadeu Salvador, em algumas residências foram encontradas larvas do mosquito até mesmo em gavetas de degelo de geladeiras. “Tem gente que nem sabe que a geladeira tem gaveta de degelo. E o mosquito se adapta muito fácil aos locais que a vida humana propicia para que ele se prolifere”, observa.

Ele destaca, no entanto, que os bairros mais afetados terão prioridade nas ações da secretaria para combater antecipadamente a disseminação do mosquito Aedes aegypti. “A intenção é orientar as pessoas a se prevenir para que não haja uma disparada na infestação quando chegar a época climática mais favorável para que isso ocorra”, conclui.

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Pesquisa

O levantamento da Vigilância Sanitária da Secretaria Municipal de Saúde foi realizado no último mês de outubro, por amostragem, em todas as áreas e setores da cidade, em quarteirões sorteados a cada 250 metros. O Índice de Breteau foi obtido com base no total de prédios, edifícios ou casas em que são encontradas larvas do mosquito da dengue, levando em consideração o número de 5.270 imóveis visitados.

O diretor do órgão, Flávio Tadeu Salvador, explica que as amostras do inseto em fase de desenvolvimento coletadas durante a pesquisa foram analisadas em laboratório. Segundo ele, essa pesquisa é muito importante porque oferece um indicador entomológico, ou seja, norteia quais os pontos de maior concentração do mosquito, quais os recipientes de procriação preferidos e, ainda, quais são os seus hábitos atuais. “Com base nessas informações, nós direcionamos e concentramos as ações de combate e controle do mosquito transmissor da dengue”, frisa.

O estudo também identificou um Índice Predial de 3,46, muito próximo ao Índice de Breteau de 4,95, o que implica em disseminação das larvas em vários pontos da cidade. Já o Índice de Recipiente identificou os locais que funcionam como os principais criadouros do mosquito em Bauru: prato de vaso de planta, entulho abandonado no quintal e pneus, nesta ordem.

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“Maria das Orquídeas”

Com 40 anos de experiência com a terra e nenhum curso formal de cultivo de plantas, a dona de casa Maria Bonifácio, 82 anos, não descuida um dia sequer do seu jardim. Lá, convivem harmoniosamente flores como rosas e exóticas orquídeas, uma horta de ervas medicinais e plantas ornamentais diversas.

E mesmo com tanto verde para cuidar na varanda da casa onde vive com o marido, no bairro Higienópolis, Maria não se deixa distrair: água acumulada nos pratinhos dos vasos, nem pensar! “Eu ponho água, deixo um tempo com o pratinho e, depois que escorreu tudo, vou lá e tiro. Precisa ter um pouco de dedicação, mas vale a pena”, comenta.

O que poderia ser considerado uma tarefa muito trabalhosa, para ela funciona como terapia, já que sempre foi apaixonada por lidar com plantas. “Agora, com esse calor, muitas vezes a água acaba secando sozinha. Quando não, a gente cuida para não criar mosquito”, ensina.

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