Meu irmão mais velho gostava de mostrar às visitas um pedaço de parede manchada de verde, guardada numa caixa de plástico transparente. Era um pedaço do Muro de Berlim que ele comprara de um camelô na Potsdamer Platz. Meu querido irmão morreu e nenhum herdeiro surgiu para reivindicar o resquício de reboco, relíquia daquele muro que há precisos 20 anos derruía como um dos símbolos da Guerra Fria. Um muro que representava a partilha do mundo em zonas de influência. Em 1943, em Yalta e, em Potsdam, em 1945, Roosevelt, Churchill e Stalin decidiram dividir o mundo, como se fosse um bolo. Assim, com tranqüilidade, sem considerar famílias, nações, etnias e culturas. Este pra mim, aquele pra você, dois para mim, dois pra ele... Uma das maiores sacanagens da história mundial.
O Muro de Berlim, com seus 156 quilômetros, dividia a parte soviética da norte-americana, inglesa e francesa. Tinha mais ou menos dois metros de altura. Na sua construção, foram consumidas 700 mil toneladas de aço. Durou 28 anos e matou 1.300 pessoas que tentaram escalá-lo em busca de parentes ou da liberdade. Outros 75 mil foram presos na tentativa de burlar a vigilância fortemente armada. Com a queda do Muro de Berlim, falou-se em “fim da história”. Teria acabado a guerra fria, a “cortina de ferro”, a corrida armamentista e as disputas ideológicas. Teríamos o início de um ciclo dourado com o uso racional dos recursos para exterminar a pobreza e as desigualdades sociais, graças a esse choque civilizatório. Tudo porque George Bush, pai, Mikhail Gorbachev e Helmuth Khol haviam decidido conversar. O processo dialógico é o único capaz de levar ao entendimento, disse uma vez o filósofo Jürgen Habermas. Para esta conclusão tão simples, o mestre de Frankfurt gastou mais de mil páginas em sua “Teoria da Ação Comunicativa”.
Hoje, existem muros para todos os gostos. De alambrados simples a enormes estruturas de concreto e aço. Com cercas elétricas, sensores térmicos, com câmeras de vigilância, radares e cães treinados. Os nomes diferem: zona-tampão, terra-de-ninguém. Até cercas virtuais foram criadas, última moda que tenta barrar o diálogo eletrônico em um mundo globalizado. Muros entre países, dentro de um mesmo país, cruzando cidades, separando bairros, criando condomínios privilegiados.
Depois de 1989 e a queda do Muro de Berlim, os cientistas políticos prognosticaram que nunca mais haveria “essas coisas” e poderíamos até esquecer que haviam existido. Falsos profetas. O censo realizado pelo geógrafo Michel Foucher, da Universidade de Montreal, Canadá, nos permite saber. No mundo existem atualmente 17 muros ou barreiras sem franquias entre países, num total de 7.500 quilômetros e há projetos para outros 18 mil quilômetros. “Nunca, desde a Idade Média, houve tanta demanda por muros”. Todos nós temos presente o muro que separa Israel da Palestina. Só a seção da Cisjordânia custou mais de um milhão de dólares por quilômetro. As paredes de concreto têm oito metros de altura, com torre de controle a cada 300 metros, fora os alambrados, fossos e estradas entre paredões onde circulam tanques de guerra. O muro da vergonha engoliu terras palestinas, separou vizinhos. Foi condenado pela Corte Internacional de Justiça, mas está lá. Ondula sobre as colinas de terras gretadas como um ato de vontade unilateral de impor um novo mapa político entre dois países.
Lembro-me de ter visitado, nos anos 70, uma linda área de recreio em San Diego, na fronteira ente o México e Estados Unidos O Parque da Amizade tinha mesas de pic-nic, velhos carvalhos e uma vista impressionante sobre o Pacífico. Símbolo de paz e fraternidade entre os povos, o parque foi inaugurado por Nixon. Mandara cortar o alambrado que dividia os dois países. Os mexicanos emigrados poderiam ali se encontrar com suas famílias do México para um almoço e conversação. Hoje, o Friendship Park tem três muros paralelos de cinco metros de altura. As famílias se vêem de binóculos e conversam por sinais a mais de 300 metros de distância.
O mundo está cheio de muros querendo conter correntes migratórias e o terrorismo, também chamado de “bomba atômica dos pobres”. Comunidades cercadas separam os que possuem menos dos que nada possuem, para preservar um trem de vida que ofereça pseudo-segurança aos ricos. Os muros servem para esconder a riqueza e não ferir sensibilidades dos bairros problemáticos que os rodeiam. Isto existe aqui mesmo em Bauru.
O pior é que os imigrantes continuam imigrando, os terroristas seguem aterrorizando e os delinqüentes de todo tipo não cessam de aperfeiçoar suas própria técnicas. Como lamentou o filósofo Yves Michaud, “Há pessoas que não têm idéia de que outro estilo de vida seja possível”.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC