Articulistas

Caso AHB: omissão é cumplicidade

Maysa Leal
| Tempo de leitura: 3 min

A gravidade do caso envolvendo a Associação Hospitalar de Bauru (AHB) exige que toda a sociedade bauruense se posicione. As denúncias envolvem não apenas crimes de corrupção, de desvio de dinheiro público, de enriquecimento ilícito, mas, também, de perseguições, abuso de poder, negligência, crimes contra a vida, desprezo pelo sofrimento humano. Uma realidade revoltante para qualquer pessoa cuja consciência moral não tenha sido deformada pelo hábito de usufruir privilégios.

O teor das denúncias corajosas trazidas a público em matéria de capa do Jornal da Cidade deste domingo, dia 08/11, revelam crimes hediondos, cujas investigações devem ocorrer sob a vigilância de todos os cidadãos bauruenses e de todas as representações da sociedade civil organizada, nomeadamente a Comissão de Ética e a Comissão de Direitos Humanos da OAB, o Núcleo de Diretos Humanos da Unesp de Bauru, a Ordem dos Médicos, a Câmara de Vereadores, a Secretaria de Saúde da Prefeitura Municipal, todas as entidades associativas de profissionais da saúde, Sindicatos de Trabalhadores, estudantes, polícias Civil e Federal, Tribunais de Justiça, imprensa escrita e falada e, sobretudo, das vítimas diretas do descalabro.

É preciso que todos compreendam que estamos numa guerra das piores que não pode ser aceita como normal, porque está causando a morte e o sofrimento de adultos e crianças como numa guerra convencional. Isso faz parte de uma organização social errada e que precisa ser corrigida. Estamos todos diante da questão ética de escolher de que lado se está e de perguntar à própria consciência o que é que se está disposto a fazer para mudar esse estado de coisas porque, já é sabido, para que o mal prevaleça é preciso apenas que os bons não façam nada.

O comum é dizer “isso não é problema meu” e deixar que a polícia ou os políticos resolvam. Mas, está errado. Numa democracia, se não houver participação de todos, sobretudo da intelectualidade, estamos todos errados. Nossa obrigação é participar para resolver os problemas sociais e o momento exige enfrentar a questão de maneira clara e corajosa. A dor e a doença não esperam e nesse momento exato existem pessoas a sofrer por causa da omissão de outras.

Solidária com todos os pacientes vítimas do holocausto que se estabeleceu no Hospital de Base de Bauru, solidária com os que buscam diariamente os serviços da Associação Hospitalar e que são reduzidos à condição desumana, solidária com suas famílias, com todos os funcionários perseguidos, humilhados, ameaçados ou demitidos e com todos aqueles que lutam diariamente pela dignidade humana, homens e mulheres que trabalham e constituem a verdadeira fonte de riqueza da nossa cidade; faço um apelo a toda sociedade bauruense. Não se omitam. Omissão é cumplicidade. Ao expressarmos nossa indignação pelos crimes ocorridos na AHB não mandamos ninguém para a cadeia. Mas, através do que o sociólogo Émile Durkheim chamou de consciência moral coletiva, impedimos que os criminosos continuem circulando entre nós de cabeça erguida.

A autora, Maysa Leal, é professora de Sociologia e Cultura, mestra em cultura e comunicação da Ciência - e-mail: maysaleal@sapo.pt

Comentários

Comentários