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O mundo não é o que parece

Paulo César Razuk
| Tempo de leitura: 3 min

No mundo da mecânica quântica em que vivemos, nós, como observadores, afetamos o universo ou qualquer coisa que pertença a ele, de modo fundamental e decisivo, sempre que o observamos. Portanto, o mundo não é o que parece ser. Sem dúvida, ele dá a impressão de estar “lá fora”, independentemente de nós e das escolhas que fazemos. Porém, a física quântica destrói essa ideia. A física quântica existe há mais de cem anos e consiste de um conjunto de regras universais bem definidas. O que ela prediz sobre o mundo não é o que o mundo aparenta ser. Ela enfatiza, entre outras coisas, estranhas superposições de realidades, realidades paralelas e objetos que estão em dois ou mais lugares ao mesmo tempo.

As leis da física quântica afirmam que, enquanto ninguém estiver olhando, o mundo obedecerá às leis da física quântica, ou seja, as realidades múltiplas devem emergir em abundância. Quando alguém olha, uma realidade se revela, enquanto as outras se escondem. Assim que uma mente age transformando aquelas realidades em uma só, ela é registrada em todas as mentes. E como pode uma mente criar uma realidade para todas as outras? Na verdade, existe apenas uma Mente e os pensamentos que temos, mesmo que pareçam pessoais e estejam confinados em nossas cabeças, são compartilhados em toda parte, por todo mundo, de alguma forma, em algum instante. Não precisa ser, exatamente, do mesmo modo que Você os elaborou, mas esses pensamentos fazem parte de uma Mente Una. Pode soar agradável e espiritual dizer que, todos nós fazemos parte de uma consciência coletiva ou de uma única mente, mas a física quântica indica que isto é a mais pura verdade. A física quântica e a consciência humana estão intimamente ligadas e a base desta afirmativa está no papel do observador no ato da observação.

O observador não é passivo e desempenha uma função única que depende do que ele acredita existir “lá fora”. Quem procura ondas, achará ondas; quem procura partículas, achará partículas. Assim, nós, humanos, temos um papel bem maior em nossos destinos do que pensávamos em princípio. Como resultado da observação, o observador ganha conhecimento, mas também paga um preço, pois fica cada vez mais afastado e isolado da coisa observada. Talvez esse seja o significado da história bíblica do Jardim do Éden. Quando o conhecimento é adquirido, os “olhos são abertos” e vemos um mundo “lá fora” e nos vemos sozinhos e separados de tudo e de todos. Adquirir conhecimento tem custado caro desde aquela primeira mordida. A cada bocada na maçã, a cada saber conquistado, experimentamos um pequenino “viva”, logo seguido por um “grande coisa!”.

Ao nos tornarmos conscientes do universo, prestando atenção nele, nós o transformamos. Como o universo engloba a todos nós, a fronteira entre nós e ele muda sempre que algo é observado. Resumindo, ele muda porque nós mudamos. O rompimento da ordem imposta no Jardim do Éden mostra como atua o princípio da incerteza (de Heisenberg) da física quântica. Somos livres para escolher e criar, mas nossa incapacidade nos convida a nos rendermos e a reconhecer que a imaginada ordem perfeita não pode existir no mundo material. Pode-se afirmar que o princípio da incerteza é uma faca de dois gumes: nos liberta do passado porque nada pode ser predeterminado e nos dá a liberdade de escolher como iremos encarar o futuro. Podemos escolher, mas sem saber se teremos sucesso. Assim nos sentimos impotentes ansiando por uma ordem que não somos capazes de criar no mundo físico.

No entanto, o simples fato deste mundo existir é um milagre tão grande, tão impossível de explicar que deveríamos, reconhecendo e confiando nisso, estarmos sempre alegres não importando com o que possa nos fazer falta no dia-a-dia. O fato de existirmos materialmente não é um milagre menor e pode muito bem ser que, o sofrimento que vemos em nossa volta e que sentimos dentro de nós, é decorrente de sermos simples imagem de uma única Mente em um espelho multirreflexivo.

O autor, Paulo César Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru

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