Em poucos segundos, a realidade do Interior Paulista era a mesma de metrópoles como São Paulo e Rio. A escuridão e o pânico com a queda no fornecimento de energia elétrica afetaram a maioria das cidades paulistas. Algumas mais, outras menos, todas viveram o pesadelo de uma noite de apagão que uniu sentimentos de espanto e prejuízos na Capital e no Interior. Em Americana, o blecaute teve reflexos drásticos na captação de água. Isso porque um dia antes a estação no Rio Piracicaba uma peça da adutora havia quebrado.
Quando o sistema ainda estava para se recuperar, veio o inesperado. Houve então corte total no serviço das bombas, das 22h20 à meia-noite e a rede do reservatório do Santa Catarina rompeu, deixando seis bairros sem água, o que afetou 70 mil imóveis. A oscilação de energia na rede elétrica provocou a queima de aparelhos eletrônicos e eletrodomésticos.
Em São José do Rio Preto, foram seis horas de caos. Pacientes das quatro Unidades Básicas de Saúde (UBSs) 24 horas e do Pronto-Socorro Central foram removidos às pressas para o Hospital de Base. Casos menos graves foram atendidos no escuro. Na UBS do Eldorado, 95 frascos de vacinas estragaram. Nos elevadores, pânico. Pelo menos 11 pessoas presas em edifícios foram resgatadas por porteiros e bombeiros. A Polícia Militar atendeu a 2.623 chamadas. No Pão de Açúcar, o estoque de 240 maços de velas se esgotou em minutos. Na Santa Casa de Jales, com luz precária, os médicos tiveram de apressar uma cirurgia no abdome de um acidentado no trânsito, enquanto dois bebês ficaram sem o aparelho de respiração artificial. “Foi um sufoco terrível”, diz o provedor do hospital, José Devanir Rodrigues.
Em Araçatuba, mais de 30 mil doses de 17 tipos de vacinas que custaram ao Estado cerca de R$ 41 mil deverão ser descartadas devido a alteração de temperatura por falta de energia elétrica. O maior estrago ocorreu nas doses da vacina contra febre amarela.
Em Sorocaba, três pessoas ficaram presas em elevadores, uma portadora de necessidades especiais teve que dormir na garagem dentro do carro e muitos passaram a noite em claro devido a ação de vândalos que aproveitaram para queimar contêineres, pichar muros e promover rachas no trânsito.
Em Araraquara e São Carlos, a pane afetou semáforos e dificultou o trânsito onde há maior fluxo. O maior prejuízo foi de estabelecimentos comerciais que funcionam 24 horas, como é o caso de postos de combustíveis. Mesmo com geradores, as farmácias ficaram às moscas. Na região de Presidente Prudente, a queda de energia atingiu os 24 municípios atendidos pela empresa Caiuá. Outra concessionária, a Elektro, registrou “desligamento sistêmico” em diversas cidades, afetando 75% dos clientes. Nesse cenário, Franca foi privilegiada. A energia apenas “piscou” em menos de um minuto.
Em Limeira, a falta de energia elétrica na noite ontem afetou a linha de produção de indústrias de Limeira. Somente na Papirus, o apagão deixou por quase três horas a confecção de papel paralisada. Até a tarde de ontem, a empresa não tinha contabilizado os prejuízos, mas estima-se que o valor em dinheiro seja elevado. De acordo com o gerente da engenharia de manutenção da indústria, José Cláudio, a falta de energia afetou a máquina principal da linha que produz o papel. Mesmo com o retorno da energia, ele cita que a máquina ainda teve que ser configurada para voltar a funcionar.
Conforme a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), nenhuma queixa havia sido registrada até a tarde de ontem na cidade. A Associação Comercial e Industrial de Limeira (Acil) também não recebeu reclamações. A reportagem ainda entrou em contato com a Arvin Meritor, TRW Automotive e Ajinomoto, porém, até o fechamento desta edição elas não se manifestaram.
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“Não fui eu...”
O apagão produziu histórias que se transformaram em casos pitorescos saboreados com o costumeiro humor interiorano. O higienizador Wilson Vitalino Santana, 42 anos, de Jundiaí, é protagonista de um deles. Consertava um interruptor na cozinha de casa quando dois fios se chocaram e causaram um curto-circuito. O estouro ocorreu no exato instante em que toda a cidade ficou sem energia. Ao sair na rua, notou que a casa dos vizinhos também estava no breu total.
“Só quando vi que o Jardim Novo Horizonte e o Fazenda Grande também estavam sem luz é que pensei que não poderia ser culpa minha”, disse ele à repórter Roberta Borges, do Jornal de Jundiaí. Mesmo aliviado, optou por não comentar a história com a vizinhança. Por volta de 3 horas da madrugada, terminou o conserto.
* Texto final - Wilson Marini, da Associação Paulista de Jornais , com informações dos jornais da Associação Paulista de Jornais - APJ