Uma outra visão da cidade. Escura, apenas iluminada pelos faróis dos veículos e pelas luzes isoladas de alguns poucos imóveis abastecidos por geradores de energia. Foi assim que, às 23h de anteontem, Bauru era percebida a partir da rodovia Marechal Rondon.
A cada trecho avançado a partir do km 335, de onde havia saído após ministrar aulas em uma universidade da cidade, não conseguia reconhecer Bauru. Por isso, instintivamente, percebi que, como eu, muitos veículos reduziam sua velocidade. Outros, preferiram aguardar no acostamento.
Mais à frente, a Base do Policiamento Rodoviário, toda às escuras, era iluminada pelo giroflex de uma viatura. No quilômetro adiante, ainda a partir da rodovia, as luzes dos supermercados Walmart e Confiança Flex eram os únicos pontos de referência para os motoristas.
Ainda incrédula, adentrei a Nações Unidas. E a cada quadra vencida, a percepção era confirmada: o que se via de Bauru era apenas o que os faróis dos veículos iluminavam. Nada mais. Passados os carros, a cidade novamente se ‘apagava’.
E essa cidade era misteriosa e amedrontadora. O Parque Vitória Régia, por exemplo, era um grande nada, imergido na escuridão. Afinal, como era possível perceber onde ‘morava o perigo’ se, às escuras, apenas traços de algo ou alguém eram notados?
Por isso, os rostos das pessoas nas ruas era de pânico, como os de jovens que tentavam atravessar em conjunto a avenida Nações Unidas ou da mulher que aguardava, sozinha, no meio da escuridão, por um ônibus na Joaquim da Silva Martha. Na mesma rua, quarteirões adiante, um casal de namorados seguia abraçado em passos apressados.
Atravessar a Joaquim da Silva Martha foi minha opção ao invés de utilizar a Duque de Caxias. Avaliei que pegar uma das principais avenidas da cidade seria tensão na certa, diante de fluxos de veículos nas transversais e semáforos apagados.
Paralelo a essa preocupação, pude compartilhar por poucos segundos da visão de tranqüilidade de alguns homens que, alheios àquela estranha situação, continuavam a desfrutar de sua cervejinha gelada nas mesas de um bar, na esquina com a rua Gérson França. Vim a saber ontem que, para isso, ligaram a bateria de um dos carros à bateria da luz de emergência do estabelecimento, dando conta, pelo menos até 1h, de tanta escuridão. Para o troco não ser prejudicado, já que era difícil reconhecer as notas e moedas, contou-se com a ajuda de um isqueiro. Paciência.
Ser paciente, aliás, anteontem à noite, não era opção, era necessário, a fim de se evitar acidentes de trânsito. No viaduto Antônio Eufrásio de Toledo, motoristas prudentes dirigiam devagar, mesmo sem o radar, recém-retirado por conta do fim do contrato com a Emdurb.
Em estado de alerta, a Base da Polícia Militar Oeste, a exemplo do Policiamento Rodoviário, também se apresentava com viaturas com o giroflex ligados e os policiais do lado de fora, a observar, atentos, o movimento dos veículos.
Na rua Bernardino de Campos, sinais de farol e buzina eram dados para comunicar passagem deste ou daquele veículo. Uma tentativa de organizar o caos, de minimizar aquele breu que só viria a se acabar por volta das 3h de ontem.
De casa, observar o céu iluminado pelas estrelas foi o único entretenimento, como deve ter sido de meus avós há décadas atrás. Com o apagão, Bauru voltou no tempo. Uma outra cidade emergiu.
A autora, Daniela Bochembuzo, é editora de suplementos do Jornal da Cidade