Regional

Cacique assume a chefia do Núcleo da Funai de Bauru

Aurélio Alonso
| Tempo de leitura: 3 min

Avaí - Após pajelança para livrar maus espíritos e abençoar o novo chefe do Núcleo de Apoio Operacional de Bauru da Fundação Nacional do Índio (Funai), o cacique guarani da aldeia Tereguá em Avaí, Anildo Lulu, tomou posse ontem à tarde no cargo. Ele vai ficar responsável por nove aldeias no Oeste Paulista.

Ele liderou em agosto deste ano um movimento que impediu que a Administração Executiva Regional (AER) perdesse autonomia financeira, mas no desmembramento determinado pela Funai transformou a repartição pública federal em Núcleo de Apoio. Na ocasião, ele tomou o escritório por dois dias e manteve cinco reféns, entre eles o administrador Amaury Vieira que, posteriormente ao protesto, foi transferido para a administração regional de Itanhaém.

A nova repartição contará com 14 dos 22 funcionários da estrutura administrativa anterior, porque entre os oito servidores há alguns transferidos devido a extinção de chefias e outros se aposentaram.

Após quatro meses de negociação com a direção do órgão em Brasília, a nomeação do cacique saiu no dia 10 deste mês, conforme a portaria nº 1.340 assinada pelo presidente da Funai, Márcio Augusto Freitas de Meira. É a segunda vez que um indígena assume a repartição – o último foi Mário Camilo em 1996 que ficou um ano na função.

Ontem o clima era festivo no gabinete da chefia de Bauru com a presença de um grupo de crianças com adereços e pintura no rosto, de um pajé, do prefeito de Avaí, Paulo Sérgio Rodrigues (PSDB) e do vereador Paulo Terena (PSDB).

Anildo Lulu admitiu que o Núcleo mantém autonomia financeira, porém a nova estrutura perdeu cargos de Departamento de Assessoramente Superior (DAS). “Sem as DAS prejudica, mas o movimento conseguiu segurar o Núcleo com poder financeiro e manteve vários setores atrelados diretamente à direção de Brasília”, afirmou o novo chefe.

A aldeia Nimuendaju, no entanto, está fora da jurisdição de Bauru. O grupo não participou do movimento e ontem o cacique disse que pretende dialogar com os caciques do grupo “rebelde”.

O movimento foi liderado por um grupo de etnias guarani, krenak, terena e cainguangue de aldeias da região. Lulu é da comunidade de Araribá localizada no município de Avaí (39 quilômetros de Bauru). O núcleo completo é composto de 700 indígenas fixados numa área de 900 alqueires divididos pelas aldeias Nimandy, Kopenoti, Ekeruá e Tereguá, mas atualmente enfrentam dificuldades principalmente em ampliar a produção agrícola. Só 40% da área tem produção, principalmente batata, mandioca, abóbora e pimenta, mas grande parte ainda é de subsistência familiar.

O cacique disse que investir na agricultura é fundamental para os indígenas deixarem as lavoura de laranja e de cana-de-açúcar. “Precisamos trabalhar na nossa terra, mas vamos depender de parcerias, porque só recursos da Funai não são suficientes”, declarou. Na opinião dele, será necessário convênio com prefeitura, Coordenadoria de Assistência Integral (Cati) e Organizações Não Governamentais (ONGs) ligadas a indígenas.

O Núcleo atende também índios da região de Avaí, Tupã e Braúna. A Funai está em Bauru há 30 anos no auxílio a projetos técnicos e sociais. O cacique ainda não sabe quanto é orçamento anual da repartição.

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‘Índio sabe o sofrimento’

Para cacique Anildo Lulu, o fato de um indígena no comando do Núcleo Regional é melhor porque ele conhece os problemas e tem mais facilidade de comunicação.

“O índio sabe o sofrimento do outro parente e tem facilidade para conversar, até mesmo no linguajar dele. O índio quer é trabalho, não queremos cestas básicas e nem fazer movimento a troco de nada”, declarou o cacique. O novo chefe ocupa cargo de confiança nomeado pelo presidente da Funai, mas a queda-de-braço remonta há três anos quando a instituição de Brasília chegou a baixar portaria extinguindo a repartição de Bauru para transferi-la para Itanháem.

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