Neste país acontecem muitos apagões pouco notados. O presidente Lula, por exemplo, decidiu criar mais uma bolsa, para que todos os companheiros e companheiras - cerca de 11 milhões de pessoas - possam falar ao celular. Telefones vão ser distribuídos de graça para as classes E e D, com direito a pré-pago de 7 reais mensais. Um presente de Papai Noel do presidente Lula e da Dilma Roussef que vai custar dois bilhões de reais em dois anos. Quem sabe, até o final do mandato o presidente se inspire para criar uma Bolsa Academia. Depois de carregar lata de reboco às costas e correr atrás do caminhão de lixo, o trabalhador terá direito de melhorar o tônus muscular nas barras e nas esteiras. Bolsa Chapinha, para alisar o cabelo da moçada, seria uma boa idéia. E por falar nisso, que tal a Bolsa 51 para contagiar de vez a periferia.
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O apagão provocou um curto-circuito político inevitável. Dilma disse que “apagão” foi aquele do tempo de Fernando Henrique Cardoso. O de agora não passou de blecaute. A candidata à Presidência pelo PT, cobrada pela promessa do tempo em que foi ministra das Minas e Energia, de que não haveria mais interrupções no serviço de distribuição de energia, atalhou a repórter, irritada: ”Minha filha, o que eu disse é que não haveria mais ra-cio-na-men-to”. Para acirrar a guerra semântica Tarso Genro assegurou que tudo não passou de um “microproblema”. Lula tratou de pôr uma pedra em cima: “foi um incidente com um raio”. E tratou de passar a bola à instância máxima: “Se Deus quiser não vamos ter mais apagões”.
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Bauru perdeu feio para Itaberá o recorde de ter dado causa ao maior apagão do Brasil. O nosso foi no dia 11 de março de 1999, às 22h16. Disseram que um raio caiu na subestação da Cesp em Bauru e o sistema caiu em 10 estados, pelo efeito dominó. Cerca de 50 milhões de pessoas ficaram sem energia, pelo tempo médio de 45 minutos. O blecaute itaberabense de terça-feira atingiu 60 milhões de pessoas em 1.800 municípios de 18 estados, com duração média de 3 horas. Estranha coincidência. Em 1999 o radar da Unesp não registrou tempestade de raio na região. Em Itaberá o povo só viu chuvisco. No “caso Bauru”, também de repercussão internacional, o bauruense Carlos Augusto Kirchner, engenheiro especialista em sistemas de distribuição de energia virou figura nacional ao explicar o que realmente aconteceu. Ausência de investimento em geração e distribuição de energia elétrica, falta de planejamento e poucas chuvas para encher os reservatórios. Bingo!
Com o início do governo Lula a ministra Dilma Roussef, então nas Minas e Energia investiu em termelétricas tocadas a carvão, gás e óleo combustível. Kirchner foi convidado a ajudar no projeto. Essas usinas serviriam como uma espécie de back-up. Quando o sistema desse mostra de esgotamento elas entrariam em operação para garantir a produção de energia. No blecaute de terça-feira elas estavam desligadas por motivo de economia.
Várias restrições e sacrifícios foram impostos ao povo, depois do apagão a partir de Bauru. A população foi obrigada a cortar 20% do uso da energia, sob pena de multa para quem não conseguisse reduzir o consumo. Até hoje milhões de brasileiros têm o costume de desligar o chuveiro para se ensaboar e apagar todas as luzinhas de stand-by da televisão, computador e microondas, para economizar. Segundo Delfim Neto, o apagão que começou em nossa cidade custou 320 reais para cada brasileiro. O de terça-feira já custou muito mais.
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Sem TV e computador o povo descobriu que tem vizinho. Foi um tal de pedir vela emprestada, caixa de fósforos, isqueiro e lanterna. Houve troca de gentilezas por cima da cerca da divisa. Famílias que moravam há anos, vizinhas parede-meia, pela primeira vez conversaram e se solidarizaram durante o apagão. Muitos casais foram dormir mais cedo, reconciliados. Daqui a nove meses vamos ter um “baby boom”, como aconteceu em Nova York em 1965. O blecaute na Big Apple durou 14 horas. Foi provocado por um galho de árvore que caiu sobre um fio de alta-tensão e enlouqueceu todo o sistema já sobrecarregado pelo excesso de consumo. 45 milhões de pessoas foram afetadas nos Estados Unidos e 10 milhões no Canadá, durante 4 dias. Apagão ou blackout, ou microproblema não são privilégios do Brasil. A diferença é que nos países civilizados a preocupação é investigar as causas e prevenir problemas. Aqui, a discussão é política-eleitoreira.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC