Bairros

Ágeis e econômicas, motos invadem os bairros

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 5 min

O número de motocicletas circulando em Bauru aumentou 8,91% em um ano. É o que aponta pesquisa realizada pelo Departamento Nacional de Trânsito (Denatran). De acordo com os dados, em maio de 2009 a cidade somava 39.881 motocicletas contra 36.616 no ano de 2008.

O baixo custo e as facilidades para se adquirir uma motocicleta, somadas à economia e à agilidade do veículo, são fatores que determinam o sucesso das motos entre os motoristas. Para comportar o número de motocicletas existentes na cidade, a Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb) mantém no quadrilátero que envolve as ruas Saint Martin/Monsenhor Claro e Joaquim da Silva Martha/Marcondes Salgado, no Centro, 533 vagas destinadas para motos e 415 vagas destinadas a mototáxis.

De acordo com a assessoria de imprensa da Emdurb, a criação da vagas destinadas a mototáxis foi implementada com a intenção de facilitar o acesso da população a este tipo de transporte, cada dia mais popular.

Mas a troca dos volantes dos carros pelos guidons das motocicletas exigiu uma mudança no trânsito da cidade: a paciência e os cuidados tiveram de ser redobrados. De acordo com o tenente-coronel Benedito Roberto Meira, comandante do 4º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPMI), a presença de motociclistas no trânsito exige mais atenção de todos os motoristas.

“Os motociclistas precisam concentrar 70% de sua atenção no equilíbrio do veículo. O restante é destinado à segurança e às normas de trânsito. Os motociclistas precisam ter em mente que eles são os mais vulneráveis, os que têm mais propensão a se machucar seriamente em um acidente. Já os condutores de carro precisam estar antenados e respeitar as motos” aponta.

Meira indica, ainda, que o comportamento indisciplinado dos motociclistas prejudica o bom andamento do trânsito. “Alguns erros são praxe: ultrapassar entre dois carros, excesso de velocidade e mau uso do capacete estão entre as ocorrências rotineiras. É comum ouvir falar em motociclistas imprudentes, mas a palavra certa é indisciplinados. Posso afirmar que 90% deles são homens”, aponta.

Medidas para fiscalizar o comportamento dos motoristas e motociclistas também já foram adotadas. De acordo com a Emdurb, cerca de 470 motociclistas são autuados por mês, no geral por excesso de velocidade e uso incorreto do capacete (viseira erguida ou jugular solta).

Fruto do abuso dos motociclistas e da desatenção dos condutores de carros, em 2009 a cidade já registrou 29 vítimas fatais, sendo que 11 delas eram motociclistas. O número representa 37,9% do total de vítimas.

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Rodovias

Se o perigo oferecido aos motociclistas que circulam pela cidade já é grande, o fato aumenta nas rodovias, especialmente para pilotos despreparados ou que não fazem uso do equipamento correto. De acordo com o tenente-coronel Benedito Roberto Meira, comandante do 4º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPMI), a dificuldade de pilotar uma moto aumenta muito nas rodovias.

Meira defende a idéia de que nenhuma moto abaixo de 250 cilindradas deveria circular em estradas de pista simples. “É muito perigoso. Motos de pequena potência têm também pequenas massas. Quando acontece o cruzamento desses veículos com caminhões, ocorre um deslocamento de ar que pode desestabilizar o piloto e provocar sua queda”, explica.

Meira aponta a visibilidade, a alta velocidade das rodovias e a possível existência de buracos como fatores agravantes para o perigo da circulação de determinadas motocicletas nas estradas. “Algumas motos foram criadas para facilitar o dia-a-dia das pessoas nas cidades. A função delas é transportar pessoas ao trabalho e auxiliar as pessoas nos afazeres diários. Elas não foram projetadas para pegar estrada. O grande problema é que não existe lei que restrinja este uso”, lamenta.

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‘Eu sou uma motociclista’

Há três anos e meio, a motogirl Cássia dos Santos Said trabalhava no mototáxi de um amigo quando notou o aumento de procura pelos serviços de uma mulher no segmento. “Muitos maridos e namorados ligavam atrás de mim para que eu transportasse a mulher deles. Eles preferiam a mim porque eu também sou mulher. Foi quando decidi abrir meu próprio negócio e criei meu motogirl”, lembra a empresária, que tem 38 anos.

Seis meninas trabalham atualmente com Said. E mesmo com o freqüente risco de acidente de trânsito, ela faz as contas e garante que é um bom negócio. “Trabalhando das 8h às 19h, com intervalos consideráveis entre as corridas, é possível ganhar cerca de R$ 1.500,00 por mês. Além disso, sobra tempo para cuidar da casa, dos filhos e fazer serviços particulares”, informa.

Foi pensando em conciliar a vida de mãe com a de profissional que ela optou por entrar na área. Said, que tem permissão para dirigir moto, carro e caminhão, pilota motocicleta desde os 18 anos, quando tirou sua primeira habilitação.

Quando engravidou de seu segundo filho, a motogirl viu no veículo uma opção para alcançar a independência. “Eu não queria me casar com o pai do meu filho, então tive de me virar. Fui trabalhar no mototáxi de um amigo e, entre uma corrida e outra, passava em casa para ver meu bebê, que estava sob os cuidados do meu filho mais velho”, conta.

Depois que abriu seu próprio negócio, Said decidiu alçar vôos maiores. Atualmente ela se aventura por todo o Estado de São Paulo fazendo entregas e pregão. “Uma determinada empresa de São Paulo abre licitação para material de limpeza, por exemplo. Aí uma empresa da Bahia se interessa e liga me contratando. Eu visito o lugar que abriu licitação, vejo o que precisa ser feito e passo as informações para a empresa interessada”, explica.

Inovar sempre foi característica de Said. Ela já se arriscava sobre duas rodas quando ainda era menina: com um mês de carta, ela viajou para o litoral com alguns amigos. E com um ano, pilotou uma CBX 750R, conhecida como ‘Sete Galos’: uma moto potente, considerada pesada para mulheres.

“Sempre amei viajar de moto. Adoro estrada”, aponta Said, que diz que o que a mantém na profissão vai além do prazer e da sensação de liberdade conferidos pela motocicleta. “A solidariedade conta muito. Motoqueiro ajuda o outro, sempre. É só te verem parada que eles param pra te ajudar.”

Superando todos os desafios que a profissão impõe, Said se orgulha em dizer: “Sou uma motociclista!”

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