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Enade: repúdio universitário

Marcella Pacheli
| Tempo de leitura: 3 min

No dia 8 de novembro, milhares de estudantes do ensino superior fizeram a prova que mede a qualidade do ensino oferecido nas graduações em todo o Brasil. Os resultados neste processo ajudam a compor os índices que avaliam a educação no país. Até 2008, o Exame acontecia por amostragem, isto é, alunos eram selecionados dentro de uma turma para realizar a prova. A partir de 2009, todos os alunos das turmas de primeiro e último ano dos cursos selecionados fazem o exame. Serão avaliados cursos de diversas áreas. As notas obtidas pela realização do Enade não afetarão diretamente o histórico escolar dos alunos, contudo, refletirão nos índices alcançados pela instituição de ensino em que este estiver matriculado e no patamar geral da educação no Brasil.

Estudantes ingressantes e concluintes serão impedidos de obter diploma caso não realizem a prova. Os resultados dos exames iniciais e finais de um estudante servirão para medir sua evolução ao longo do curso. Sabidas todas estas coisas, não param de ecoar as perguntas: “Por que preciso desta prova?”, “O que isto tem a ver com minha graduação?”, “Sou obrigado a fazer?”, “Em pleno domingo?”, “O que é cobrado?”, entre muitas outras.

Eu e todos os meus colegas fomos “convocados” a fazer a “tal” prova. Todas as vezes que ouvi comentários a respeito foram os piores possíveis. Tudo começa pelo fato de a universidade mobilizar boa parte de suas forças e artifícios para fazer com que os alunos se empenhem no exame. Por questões óbvias, as instituições particulares precisam de boas notas que as bonifique diante do MEC; diferentemente das instituições públicas de ensino superior que, por não concordarem com o método de avaliação ou por protesto relativo ao repasse de verbas ou por considerarem que seus “nomes” são suficientes sinônimos de qualidade, simplesmente ignoram a avaliação e consentem os boicotes promovidos por seus alunos. Ainda que bem intencionada, uma palestra que coage estudantes a fazerem uma boa prova sob o pretexto de seleção no mercado de trabalho, por exemplo, parece-me fraca e frustrante. Diga-se, nunca soube de uma entrevista em que o empregador tivesse pedido a nota do “tal” exame. Pode-se chegar ao cúmulo de haver cursos preparatórios para o Enade, ou seja, subentende-se que a universidade não considera suficiente o ensino oferecido aos seus alunos e por isto promove oficinas extras a fim de qualificá-los para o exame. Uma bela máscara para um assunto que de superficial e instantâneo nada tem. Em contrapartida, algumas diretorias alegam que o “provão” é um estímulo ao avanço. Louvável intenção, mas a melhoria contínua do conhecimento produzido nos centros de ensino já não seria razão suficiente para o progresso? Não nos esqueçamos do quesito credibilidade. Esperamos que não seja semelhante ao Enem que, recentemente, foi exemplo do quanto a educação é tida com descaso por nossos governantes. Tendo em vista o roubo da prova que avalia todo o ensino médio nacional, por quais mãos passará o futuro do ensino superior?

A abertura de um debate sobre a avaliação é uma necessidade que se faz há algum tempo. É preciso pensar no melhor método. É preciso oferecer argumentos que convençam os universitários sobre realização da prova. É preciso trazer o conceito da avaliação para a realidade dos estudantes. Sobretudo, precisamos que os processos avaliativos apenas oficializem a evolução no cenário acadêmico, na produção de ciência, na melhoria da sociedade através da educação. Tenho para mim que as pessoas não se envolvem com aquilo que não se interessam. Pelo menos não de verdade. Pra que fazer o Enade?

A autora, Marcella Pacheli, é estudante de jornalismo e colaboradora de Opinião

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