Foi necessário um apagão de algumas horas para que duas realidades do sistema de saúde de Bauru ficassem bem claras. Enquanto a cidade mergulhava nas sombras de uma noite borrascosa, um grupo de pessoas mergulhava na incerteza que revestia a situação da Maternidade Santa Isabel. Médicos, funcionários da enfermagem, administração, vigilância, ombreavam-se para minimizar os problemas decorrentes da falta de um gerador de energia, de reserva. Imaginemos a angustia dos pais de bebês que necessitavam de monitores, respiradores que tem uma reserva técnica de energia de três horas.
Depois a apreensão e preocupação dos profissionais de saúde em conseguir em tempo hábil propiciar uma alternativa para esses bebês. E se no momento da queda de energia estivesse acontecendo uma cesareana e que o médico estivesse chegando ao instante de abrir o útero e retirar o feto. Como se sentiria o médico? Como se sentiriam os demais membros da equipe? O pediatra que esperava pelo recém-nascido?
A mãe ali deitada, anestesiada apenas da cintura para baixo vendo sua cirurgia interrompida? Os familiares do lado de fora sem saber como estava a situação lá dentro e sem ter sequer quem buscar uma informação pois todos estariam procurando contribuir de algum modo para amenizar a situação técnica? Não seria exagero dizer que seria uma noite de horror para todos.
Por outro lado, saltou aos olhos de muitos a situação do Pronto-Socorro Municipal. Enquanto Bauru se vestia de negro, o PS brilhava em meio às trevas. Sua energia elétrica foi logo suprida pelo conjunto gerador de emergência . Até as luminárias externas faiscavam na noite. Os equipamentos todos funcionando, quartos, corredores, consultórios iluminados, até os ventiladores e aparelhos de ar condicionado funcionavam como se nada estivesse acontecendo. A única preocupação era conseguir diesel suficiente para abastecer o gerador, evitando interromper a geração de energia.
Eu estava lá de plantão. Não pude deixar de conjecturar incisivamente. PS tão criticado, funcionários tão agredidos verbal e até fisicamente por usuários, polícia tantas vezes acionada por pessoas irritadas com demora no atendimento. PS e seu material técnico e humano tantas vezes alvo de reportagens depreciadoras. De minha parte ficou uma certeza: o problema do PS não é outro senão a falta de um quadro de funcionários suficientemente numerosa para não ficarem equipes de plantão desfalcadas.
O problema é uma rede básica sem condições de atender às necessidades ambulatoriais da população. É o desvio de finalidade do PS que se transforma todo dia num enorme ambulatório e fonte de busca de atestados desavergonhada por boa parte dos usuários. No dia em que houver uma reestruturação das unidades básicas, de modo a se deixar para o PS apenas os casos a ele pertinentes, não será necessário nenhum apagão.
Nesse dia o PS brilhará pela luz própria de sua equipe valorosa e deixará de ser lembrado por reclamações de insatisfeito para o ser pela qualidade do serviço prestado.
Áureo Antonio Érnica - médico